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Justiça: o que a Bíblia diz?

Atualizado: 24 de Mar de 2020


Lourenço Stelio Rega


Na cultura popular, a palavra justiça tem diversos significados, o que inclui o Poder Judiciário com todos os seus procedimentos legais; também, popularmente, pode significar a própria polícia ou mesmo ser sinônimo de vingança quando um crime é cometido e a vítima ou seus parentes “cobram justiça”. Do ponto de vista geral, ser justo significaria obedecer a essas normas.

O conceito de justiça na Bíblia hebraica (Antigo Testamento) é um dos temas centrais e geralmente é representado pelas palavras hebraicas mišpāţ, şedeq e şedāqāh. Especialmente no Antigo Testamento, essas palavras frequentemente estão em contextos que representam como que uma justiça salvadora.

Nesse sentido, temos a conexão com conceitos como: expressão de amor de Deus e sua misericórdia. Isso no leva ao conceito mais profundo de justiça em toda teologia bíblica, que aponta para a natureza do próprio Deus, pois Deus tem como um de seus atributos a justiça: Deus é justo (Sl 7.11; 116.5). Se considerarmos a definição de ética que temos em Emil Bruner (“a ciência da conduta humana que se determina pela conduta divina”) é possível compreender que o ser humano deverá trazer em suas escolhas e ações a reprodução da natureza e conduta divinas, compreendendo-se aqui que deve também ser justo.

Além disso, essas três palavras hebraicas figuram associadas à aliança de Deus com Israel, quando estão ligadas a outras palavras, tais como hesed (bondade, misericórdia, amor) e ’emet (verdade, fidelidade). Essas conexões nos levam a compreender em mišpāţ, şedeq e şedāqāh a ideia de alteridade (conexão com o outro), tendo aqui o atendimento das necessidades do próximo, promovendo seu bem-estar e busca por melhorias em suas condições de vida. Assim, temos inúmeras prescrições da justiça dirigidas ao órfão, à viúva e mesmo ao escravo, classes de pessoas menos favorecidas naquela época.

Mas também temos a ligação do conceito de justiça com aquilo que é reto. Nesse sentido, na Bíblia o referencial sempre aponta para Deus como “métrica”, isto é, dele e sua vontade no plano criado é que temos o fundamento e o ponto de partida para compreender o significado daquilo que é justo. Assim também é o significado da palavra grega no Novo Testamento para justiça (dikayosyne). Na comparação entre o Antigo e o Novo Testamento sobre o significado de justiça e suas conexões, temos a hipótese de que no Antigo Testamento esse termo está mais ligado a Deus como justo juiz, enquanto no Novo Testamento está mais ligado a Deus como Rei e seu reino (ainda que tenhamos traços dessa conexão também no Antigo Testamento em Salmos 45.5).

No Novo Testamento temos também a justiça ligada à própria pessoa. Em Romanos 6.14, temos o ensino paulino de que nossos atos e decisões deverão estar à disposição e serviço da justiça. Temos aqui uma figura de linguagem ou de estilo conhecida por metonímia, em que se utiliza uma realidade por meio de outra; no texto de Romanos seria a utilização do corpo para representar a vida em si.

Até aqui demonstramos o conceito de justiça conectado com a vida humana, seja envolvendo a vida individual (especialmente no Novo Testamento), seja nos relacionamentos interpessoais e não simplesmente com aspectos legais envolvendo prescrições normativas a serem obedecidas. Assim, o significado de justiça no Antigo Testamento e na Bíblia toda contrasta com a visão que temos no mundo ocidental.

No Novo Testamento temos ainda o conceito de justificação, ligado à recuperação do ser humano de seu estado de rebeldia contra Deus por meio da morte substitutiva de Jesus. É interessante notar que a doutrina da justificação tem caráter de equilíbrio entre o amor e a justiça divina. Enquanto a justiça e a retidão divinas requeriam a morte do rebelde, o amor, a sua absolvição. A justificação passa a ser a ação equalizadora de Deus entre estes dois opostos – amor e justificação.

Além disso, temos no sentido geral da Bíblia conceitos relacionados, tais como justiça social, distribuição justa de bens, etc., que também estão conectados aos efeitos inter-relacionais da retidão ou da justiça. Na História da Teologia temos o conceito de “justiça social” de certa maneira ligado ao desenvolvimento da Teologia da Libertação, que focalizava o pobre como o centro da ação divina e da Igreja. Assim, surgiram conceitos como “opção preferencial pelo pobre”, que era oprimido pelas classes dominantes, dentro de um contexto de análise fundada em conceitos geralmente ligados ao marxismo.

É interessante notar o conhecido “Pacto de Lausanne”, fruto do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado na cidade de Lausanne, Suíça, em 1974, que focalizou a missão integral da Igreja, trazendo certo alívio aos teólogos evangélicos, especialmente dos países que viviam sob regime militar e ditatorial, tais como na América do Sul e América Hispânica, que não conseguiam fazer conexão do marxismo com a teologia evangélica, e agora poderiam pensar em uma alternativa da missão integral lausanneana com a justiça social, alcançando os povos oprimidos nesses países. Então a ideia de missão integral da Igreja passou a ser conectada com a ideia de justiça social, sem passar necessariamente pelo projeto de cor marxista da Teologia da Libertação.

Tivemos grande avanço com isso no meio evangélico desses países, incluindo o Brasil, pois agora o Evangelho deixava seu foco apenas escatológico, projetando nova vida para o futuro, e passava a ter significado para a vida presente, especialmente para o atendimento das necessidades das classes menos favorecidas. Mas, por outro lado, o foco nesse sentido foi tão intenso que a expressão “Teologia da Missão Integral” (TMI) passou a apontar mais para o caminho do afrontamento socio-político-econômico.

Depois de passado um bom tempo disso tudo, o que se pergunta hoje é se não teria havido um “sequestro” semântico da expressão “Missão Integral” para lhe dar significado diferente do que se buscou originalmente em Lausanne I (1974), provocando certo reducionismo nesse significado. Tanto que, pessoalmente, voltei a utilizar a expressão “Missão Holística da Igreja” (dentro do conceito de “missio dei”), expressão que nas décadas de 70 e 80 estava mais conectada com a Nova Era, mas hoje já é possível a sua utilização, pois o que temos de integralidade na missão que Deus tem para a Igreja é muito mais do que apenas o foco salvacionista e, mesmo, o foco socio-político-econômico.

Para concluir, dando mais um toque de história contemporânea da teologia, é possível esboçar a hipótese de que a Teologia da Libertação foi de certa forma, suplantada pela Teologia de Mercado, com sua característica busca da prosperidade.

Assim, enquanto na Teologia da Libertação buscava-se a justiça no projeto do outro, do pobre e oprimido, na Teologia de Mercado busca-se alimentar o próprio projeto pessoal de vida.

Justiça, muito mais do que senso legal, senso de vingança, é enriquecida pelo ensino bíblico a partir da própria natureza de Deus, que, além de justo juiz, é reto, atua e julga conforme a equidade e, como nos ama, também providenciou um meio para nos recuperar de nosso estado de rebeldia, indo além da justiça natural, providenciando-nos a justificação por meio da morte substitutiva de seu Filho em nosso favor. ▣

#Deus #Natureza #Divino

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