• Editora Literal

Justiça na Igreja

Atualizado: 24 de Mar de 2020


Magno Paganelli


Uma das cenas mais curiosas da história e da sabedoria judaica, na minha opinião, ocorreu numa audiência de conciliação. O rei Salomão precisava decidir a guarda de um filho disputado por duas mulheres, cada qual alegando a legítima maternidade da criança. Mandar cortar a criança ao meio, dando metade para cada uma das mulheres, foi surreal, porém rigorosamente sábio... além da frieza do ponto de vista emocional.

A passagem ilustra a radicalidade que uma virtude evoca, no caso, a justiça, quando é preciso aplicá-la no sentido pleno. O rei não desprezou a integridade física da criança, pois, a bem da verdade nenhuma execução aconteceria no salão real. Ele sabia que tal decisão faria manifestar o sentimento mais profundo de ambas as partes, a mãe que se pretendia legítima e a mãe de fato. Bingo! A falsa mãe concordou com a sentença; não tinha nada a perder. A mãe legítima concordou em abrir mão da guarda para, ao menos, ver vivo o filho, ainda que a distância. A vida falou mais alto, a reboque de uma decisão justa.

Ninguém sabe responder quanta coisa má e cruel poderia ter sido evitada no mundo se os responsáveis pelas decisões mais difíceis fossem sábios e justos como aquele rei. Quantas mortes teriam sido evitadas, quanto prejuízo, quanta tristeza, dor, ódio, vingança, desilusão, desesperança. Tudo pode ser perdido por uma decisão injusta, aparentemente tola, simples.

A canetada de um juiz, a condenação de um corrupto, a detenção de um criminoso, o pagamento de uma indenização, uma autorização adequada, o investimento necessário, a correção devida. São coisas do dia a dia que constroem, lentamente, a cultura da justiça ou da injustiça; e tudo começa no lar, passa ao desenvolvimento e chega conosco à idade adulta, para nos acompanhar no trabalho, na vida civil, pública e religiosa. Fiel no pouco, fiel no muito. Infiel no pouco, infiel no muito. Fidelidade e justiça, nesse sentido, são homônimos.

Uma das necessidades da igreja brasileira é disposição para uma autocrítica séria, visando apresentar-nos à sociedade com uma imagem relevante para o Brasil. Eu recomendo o exercício de leitura de O paciente fermento da Igreja Primitiva, de Alan Kreider (Ed. Sal Cultural, 2017). Na obra, o professor Kreider demonstra como os cristãos eram em suas relações sociais entre a população não cristã, tanto no Império Romano quanto no Norte da África, no socorro aos necessitados, no comportamento e no testemunho que davam da fé e da regeneração, e até no enterro dos pobres, uma vez que funerais eram um luxo que poucos podiam ter. Fazendo isso, os cristãos chamavam atenção para quem eles eram e no que eles criam. Tertuliano chegou ao ponto de mencionar o “Vide” (Vejam!) dos vizinhos dos cristãos em seu amor uns pelos outros, e o prof. Kreider acrescenta que não era o que ouviam dos cristãos, mas o que “viam” que atraiu seguidores e acrescentou discípulos à igreja do período.

O que há a ser visto na igreja hoje? Nossos vizinhos e colegas de faculdade ou de trabalho são atraídos para quais aspectos do nosso comportamento? Quando é que ouvimos “Vejam!” para coisas que habitualmente fazemos (1 Pe 2.11-12)?

Eu não serei reducionista afirmando que “toda” a igreja brasileira é irrelevante, porque conheço bons e variados projetos em andamento, os quais testemunham o vigor da presença do Espírito em nosso meio. Também sei que as más obras, os escândalos e os desmandos de algumas lideranças estimulam a sanha dos detratores, que só fazem ver o cisco no olho alheio.

Mas é preciso atenção para o corporativismo da liderança (em diversas situações), o comportamento da bancada evangélica no Congresso, que por vezes dá mal exemplo, e as nossas tentativas de transitar no mundo comportando-nos acriticamente e sujeitando-nos à cultura vigente. E nem precisamos falar de coisas como o estelionato cometido por grupos itinerantes e a “pirâmide financeira” em alguns setores da Igreja sob pretexto de “honrar a liderança”. Tem sido pregado que é preciso “honrar o líder” dando a ele o “dízimo dos dízimos”, “a primícia das primícias”. Um desses “líderes” embolsou cerca de trezentos mil reais na ocasião do seu aniversário: tudo sob o manto sagrado de uma interpretação desonesta da Escritura.

Onde e quando foi que erramos? Não há uma só resposta para essa pergunta. Portanto, é preciso fazer algumas considerações. A primeira é sobre o conceito de justiça. Justiça não é um termo religioso apenas, embora o cristianismo protestante lide com a doutrina teológica da justificação. O conceito é mais amplo, especialmente considerando o quadro social do Antigo Testamento, onde a justiça envolvia a igualdade entre as pessoas, o equilíbrio socioeconômico e o reflexo do modo como Deus trata aqueles que se aproximam dele. No Israel antigo havia uma regra dada por Deus tanto para as pessoas comuns quanto para o rei (Pv 31.5, 8-9; Sl 71.1-2).

O autor insiste em que o exemplo de uma decisão justa e reta partisse da liderança, isto é, do rei. Na oração do Salmo 71 (“Reveste, ó Deus, da tua justiça”) transpira o desejo pela relação de proximidade entre Deus e o rei, de modo que a aproximação do Senhor deve resultar em conscientização a respeito de “os teus que sofrem opressão”. A justiça no sentido bíblico não é o que Deus fez ou deixou de fazer em meu benefício; antes, o que você e eu, como pessoas próximas a ele, podemos fazer pelo bem do próximo que está oprimido ou sofrendo injustiça diariamente e aos domingos se assenta ao nosso lado.

O segundo ponto é sobre as pessoas que cantam e celebram a reivindicação de um “céu de brigadeiro” na terra do faz-de-conta. O Novo Testamento é irredutível sobre o relacionamento social entre irmãos e entre nós e os não cristãos. Em Filipenses 2.4, Paulo adverte para não termos cuidado somente de nós, “mas também dos interesses dos outros”, usando como modelo o exemplo de Jesus Cristo (v. 5), na conhecida passagem do “esvaziamento da divindade”.

Que exemplo extraímos daqui? Cultos transformados em espetáculos, com a qualidade de programas de televisão e a espiritualidade de uma casa de apostas. A ambição estimulada nos ouvintes não é pela santidade, a pureza, a simplicidade, um coração manso nem as virtudes do Espírito. É fácil ouvir mensagens que procuram levar ouvintes ao desejo pela conquista da terra e de tudo o que ela possa dar, em vez de desejarem a justiça do Reino: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.3).

Como esperar que cristãos do século XXI sejam justos quando nos ensinam a sermos injustos segundo o padrão de Deus? Quando imitam a cultura à sua volta? Quando não há ênfase em um perfil cristão distinto? Penso que não tenho resposta fácil para essas perguntas e a que dá título a este artigo.

Há um número grande de membros que não têm pensamento crítico; conhecem pouco ou nada do texto bíblico; entregam a seus pastores e líderes a responsabilidade por selecionar que tipo de comportamento religioso terão. Essa letargia encontra uma liderança que depende das entradas da igreja para sobreviver, porque ajustaram o modelo de ministério para se parecer com uma carreira profissional de sucesso, como a de qualquer CEO bem empregado na Berrini. Essa combinação não deu certo, e os erros do papado medieval têm sido atualizados e repetidos.

Estamos permitindo que a criança seja dividida ao meio, porque ninguém quer perder nem suportar o peso de uma vocação. Quando a espada aparece, é preciso render-se, folgar, abrir mão. Estamos sacrificando crianças à custa da má compreensão do significado de questões como “o que é ser cristão”, “ser vocacionado”, “entregar nossa vida a uma missão”.

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