• Editora Literal

Justiça e a missão

Atualizado: 24 de Mar de 2020


Oswaldo Prado


Eu acabara de chegar de um encontro de pastores. Diferentemente de outras, aquela reunião havia impactado fortemente a minha vida. Não foram as palestras, tampouco a convivência sempre benéfica com outros pastores. Um de meus colegas de ministério, presente nesse encontro, chamou-me para uma conversa em uma sala, para termos privacidade. Sem perder tempo, ele foi direto ao assunto: “Você tem levado sua igreja ao compromisso com a missão de Deus no mundo?”. Sem pestanejar, respondi rapidamente: “Sim, claro, temos nos envolvido com vários projetos missionários e até mesmo apoiado financeiramente vários deles!”. Mostrando não estar satisfeito com minha resposta, prosseguiu: “Os membros de sua igreja estão efetivamente envolvidos nesses projetos missionários?”.

Naquele momento, aquelas palavras haviam tocado profundamente minha vida, descortinando-me algo que estava ainda oculto e sem compreensão.

Assim que retornei, busquei livros que tratavam do assunto. Iniciei um movimento de networking com gente que estava vivendo e respirando a missão. Intencionalmente, passei a frequentar encontros que tratavam de missões e comecei a receber informações sobre o movimento de evangelização ao redor do mundo. Não foi preciso muito tempo para reconhecer que algo, no mínimo estranho, estava acontecendo em boa parte das igrejas. Poucas comunidades viviam e respiravam verdadeiramente a missão. Boa parte delas estava envolvida unicamente com projetos que visavam atender aos que já frequentavam a igreja. Outras tratavam do tema da evangelização com um viés de forte reducionismo, tendo os olhos voltados unicamente para o bairro ou a cidade onde estavam inseridas.

Nesse momento veio à minha mente, pela primeira vez, alguns questionamentos que se prolongariam ao longo dos anos, até os dias de hoje: é justo uma igreja existir apenas para atender a seus membros ou, quando muito, para alcançar pessoas ao seu redor com o evangelho redentor de Jesus? De que maneira eu posso permanecer convivendo somente com aqueles que já professam a fé cristã sem sentir o compromisso de justiça para com aqueles que permanecem na escuridão?

Essas perguntas me acompanham até hoje, mesmo tendo passado mais de três décadas imerso no movimento missionário. Se eu pudesse resumir esse sentimento em uma só palavra, ela seria “injustiça”. Algo que mostra parcialidade. Desigualdade.

Refletir sobre reconhecer a presença da justiça na missão de Deus na vida da igreja não é uma tarefa fácil. Podemos simplesmente cair em uma armadilha perigosa: desenvolver alguns pensamentos a partir daquilo que cremos ou desenvolver um raciocínio reducionista, compartilhando tão somente nossa própria tradição teológica e denominacional. Esse parece ser, a meu ver, o caminho mais usado e trilhado por muitos. Perdemos o hábito saudável e enriquecedor de ouvir os “diferentes” e aqueles que não fazem parte do “nosso grupo”.

Preferimos trilhar sempre o mesmo caminho, sem perceber que, ao nosso lado, existem companheiros de jornada que também sonham os mesmos sonhos, algumas vezes com estratégias um pouco diferentes das nossas.

Para estarmos bem alicerçados no tema que estamos tratando, torna-se imprescindível voltar nossos olhos para as Escrituras. Nela encontramos o rumo certo e o tratamento necessário para curar nossas possíveis patologias. Antes mesmo de fazer um paralelo entre justiça e missão, é imperioso compreender o que a revelação bíblica compartilha sobre a justiça.

É importante, logo de início, reconhecer que a justiça faz parte da própria essência de Deus. “É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto ele é” (Dt 32.4).

O salmista declara: “Pai para os órfãos e defensor das viúvas é Deus em sua santa habitação. Deus dá um lar aos solitários, liberta os presos para a prosperidade…” (Sl 68.5,6).

“Rei poderoso, amigo da justiça! Estabeleceste a equidade e fizeste em Jacó o que é direito e justo” (Sl 99.4).

“Ele defende a causa dos oprimidos e dá alimento aos famintos. O Senhor liberta os presos, o Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos. O Senhor protege o estrangeiro e sustém o órfão e a viúva” (Sl 146.7-9).

Nesse sentido, quando tratamos do envolvimento de uma comunidade com a missão de Deus, estamos falando de um Deus que é justo e que busca aqueles que vão exercer justiça em seu nome. O inverso também é verdadeiro. Se permanecermos “cuidando de nós mesmos”, sem nos atentarmos para os que estão precisando da intervenção missionária da igreja, não estaremos promovendo a justiça. Ao contrário, estará acontecendo um movimento que a física chama de centrípeta – “a força é sempre dirigida para dentro, em direção ao centro”. Nesse caso, as ações da igreja acontecem invariavelmente sempre dentro dos seus próprios limites e de preferência procurando alcançar os próprios cristãos.

John Stott afirma: “Todos nós deveríamos concordar que a missão surge primariamente da natureza de Deus e não da natureza da igreja. O Deus vivo da Bíblia é um Deus que envia”.

Essa força centrífuga deve ser a marca da vida de uma igreja em missão. Ao contrário da força centrípeta, que faz com que tudo ao redor aponte para ao centro.

Portanto a justiça se faz presente na vida de nossas igrejas quando elas abraçam verdadeiramente a natureza missionária do próprio Deus, que busca resgatar o ser humano caído por meio da obra redentora de Cristo na cruz.

Há também declarações enfáticas nas Escrituras que afirmam que a justiça de Deus pode estar longe daqueles que assumem posturas religiosas sem uma espiritualidade conectada com a missão:

“Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes. Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal, isso não me agradará. Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não darei a menor atenção a elas. Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene” (Am 5.21-24).

Nota-se uma clara evidência de que Javé se afasta de qualquer manifestação cúltica sem o devido compromisso com aquilo que é justo.

Nossas celebrações tem acontecido em um ambiente em que temos tido os momentos de adoração, exposição da Palavra e ofertas sem o devido compromisso de sermos também justos com a missão? Estaríamos vivenciando algo semelhante com o que ocorria nos dias de Amós? Muita festa, alegria e até mesmo comunhão, sem contudo atentarmos para um mundo ao nosso redor (e também distante) sem o conhecimento da redenção que temos em Cristo Jesus?

Outro aspecto que considero importante quando tratamos a respeito da justiça em relação à missão de Deus diz respeito aos recursos que são levantados e investidos em nossas comunidades. Essa é uma área bastante sensível e que muitas vezes provoca os mais variados sentimentos. Alguns preferem nem tocar nesse tema, entendendo que ele é extremamente subjetivo e pessoal.

Quando pastoreava uma igreja em São Paulo, sugeri à minha liderança que instituíssemos aquilo que eu estava chamando de Oferta Missionária.

Essas ofertas seriam destinadas unicamente para o sustento de missionários e seus projetos. Foi um longo tempo de conversas para chegarmos a uma conclusão. Para alguns daqueles líderes, o fato de estarmos levantando uma oferta específica para missões poderia causar um problema em relação aos dízimos e outras ofertas. Alguns poderiam, segundo eles, deixar de entregar seus dízimos, já que estavam ofertando para missões.

A grande surpresa foi que os dízimos aumentaram consideravelmente, enquanto as ofertas missionárias eram também levantadas. A partir daquele momento foi iniciado um movimento de apoio a missão que perdura até hoje, passados quase 30 anos.

Quando refletimos sobre a justiça em relação ao compromisso missionário de uma igreja, torna-se mandatório levantar algumas questões importantes.

Existe, como filosofia de ministério da igreja, um posicionamento claro em relação ao levantamento de ofertas destinadas a missões?

Quais projetos missionários são contemplados? Estão localizados na cidade onde a igreja está plantada, mas também em outros lugares do país e outras nações?

Paulo traz à luz uma luta que parece existir até os dias de hoje: “Como vocês sabem, filipenses, nos seus primeiros dias no evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja partilhou comigo no que se refere a dar e receber, exceto vocês; pois, estando eu em Tessalônica, vocês me mandaram ajuda, não apenas uma vez, mas duas, quando tive necessidade. Não que eu esteja procurando ofertas, mas o que pode ser creditado na conta de vocês” (Fp 4.15-17).

A expressão “nenhuma igreja partilhou comigo no que se refere a dar e receber” deve chamar nossa atenção. Parece haver um grito calado no coração do apóstolo e que ele decide declarar, em alto e bom som, certamente inspirado pelo Espírito Santo.

Fico por vezes a pensar se somos justos com a missão quando tantos recursos que são levantados em nossas igrejas são destinados prioritariamente para a construção e manutenção dos templos. Reconheço que existem honrosas exceções. Igrejas que têm um vasto patrimônio e continuam a ser abençoadas por Deus por estarem abençoando missionários ao redor do mundo.

CS. Lewis deixou registrado: “Se você ler a História, saberá que os cristãos que mais fizeram por este mundo foram aqueles que pensaram muito mais no mundo vindouro”.

Uma espiritualidade cristã sadia é demonstrada cabalmente quando cremos na eternidade com Cristo e também compreendemos que nossa tarefa é abraçar e cumprir a missão de Deus enquanto ainda estamos neste corpo terreno.

É certo que haverá um dia em que todos serão julgados com justiça (At 17.31). Isso acontecerá porque o Deus da justiça se revelou a nós por meio de Seu Filho, Jesus Cristo. Essa manifestação de pura graça, que custou a vida do Filho de Deus em nosso favor, deve ser compartilhada com os que estão perto e longe de nós. E isso simultaneamente.

Enquanto é tempo, consagremo-nos e nos dediquemos ao serviço da missão de Deus em nossas comunidades locais.

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