• Editora Literal

A recorrência de um problema antigo


Magno Paganelli


Nos tempos de Jesus, o grupo mais numeroso e influente entre os judeus era o grupo dos fariseus. Eles surgiram logo depois do (ou concomitantemente ao) período Macabeu. A história do reinado Macabeu é uma história de lutas e discórdias causadas pela ambição e pelo poder; seus líderes eram os hasmoneanos, descendentes de um sacerdote do tempo de Davi, Hasmon. Os hasmoneanos tornaram-se os saduceus do Novo Testamento (e podem ter dado origem aos essênios). Os sucessores dos judeus devotos que se opuseram aos hasmoneanos (também conhecidos como hassidim ou “os santos”) tornaram-se os fariseus, grupo que foi duramente criticado por Jesus (Mateus 23.13-36). Por volta de 135 a.C, já estavam bem estabelecidos.

Os fariseus guardavam a lei rigidamente, acreditavam na existência de anjos e espíritos e aguardavam a ressurreição do corpo. Alguns eram fanáticos, mas muitos eram homens íntegros e honrados. Alguns cristãos primitivos vieram da seita farisaica (At 15.5). Aqueles dentre os fariseus que creram, encontraram em Jesus o cumprimento de suas esperanças (Magno Paganelli, Manual de história e crenças das religiões. São Paulo: Garimpo Editorial, 2018, p. 181.).

A pluralidade de partidos em Israel nos tempos do Novo Testamento e a diversidade interna a esses partidos é um fenômeno constante e presente em nossos dias, em nossas igrejas. A ganância pelo poder é notável; pode-se vê-las nas Convenções, em tempos de eleições e no dia a dia. O interesse pelo enriquecimento vem a reboque, ninguém negará isso.

Acontece que essa prática é própria da nossa humanidade, não somente dos grupos religiosos que despontam aqui e ali. Todo ajuntamento social revela pessoas mais ou menos ambiciosas, outras mais ou menos rigorosas com o cumprimento de normas, leis, regras e ritos. Seria uma inocência imaginar haver um grupo casto, de eleitos perfeitos e uniformizados, seguidores de uma doutrina pura que não necessitasse de “reparos”. Isso simplesmente não existe. Aqui reside a dificuldade recorrente que a Igreja enfrenta: formar em seus membros um pensamento e conceito claros sobre a fé cristã em vez de revesti-los com o dogmatismo das diferentes correntes ou, o que é pior, a pobreza das amarras denominacionais, com seus vícios e cacoetes.

Há muitas coisas que uma igreja pode fazer pela sociedade, mas a sua prioridade é formar discípulos de Jesus, levando pessoas a seguirem o Mestre. Por vezes pintam um “mestre” à imagem e semelhança de seus criadores. No balcão da fé há Jesus para todos os gostos, o que aponta o nível mais baixo da religião cristã e qualquer outra que utilize o mesmo expediente: um salvador utilitário. No patamar imediatamente acima dos que procuram um salvador servidor está um grupo que conseguiu superar o uti- litarismo da fé, mas caiu na religiosidade, essa sutil e venenosa teia aparentemente genuína da fé.

A religiosidade é (ou se expressa), a meu ver, nos aspectos da prática da religião. Em outras palavras, religiosidade é a manifestação regular e repetida dos elementos que constituem uma religião ou o comportamento religioso. Por comportamento religioso se está sugerindo que os elementos “religiosos” não são encontrados somente em reuniões ou em pessoas místicas que acreditam num Deus pessoal ou transcendental. Há filosofias seculares que também se constituem uma religião secular, uma crença que reúne todos ou os principais elementos que são encontrados na religião. Por exemplo, o pensamento político muitas vezes se assemelha ao pensamento e comportamento religioso, uma ideologia, uma utopia política, social ou cientificista. Nós, brasileiros, temos visto isso no cenário das disputas políticas recentes, partidos muito aparentados ao espírito de uma religião.

No plano da fé cristã na história, houve momentos quando indivíduos e grupos reagiram ao establishment viciado, criando alternativas para despir o essencial do supérfluo e experimentar (e transmitir) o que de fato é o próprio da vida com Deus. Desde Antão de Koma (250-356), nobre que doou bens e foi viver num túmulo a Pacômio (320-325), que fundou um mosteiro no deserto (por isso outros foram chamados Pais do Deserto), passando pelos valdenses no séc. XII, até a Reforma Protestante, a John Wesley que não abriu mão de ministrar ao ar livre, considerando o mundo inteiro como sua paróquia ao ser impedido de usar a tribunas das catedrais anglicanas.

Todo esse conjunto de eventos e personagens alcançaram um entendimento sublime a respeito de questões fundamentais da fé cristã. Para ficar em um exemplo apenas, tomemos o simbólico conceito de Igreja. Com a inauguração em Londres da maior igreja do mundo à época, o Metropolitan Tabernacle (ou Spurgeon’s Tabernacle), em março de 1861, para 6 mil pessoas sentadas, líderes de todo o mun- do começaram a visitar o local para conhecer a novidade. Desde então, ao retornarem para seus países, esses líderes de diferentes denominações ao redor do mundo têm se empenhado em mostrar uma igreja ao invés de edificar a Igreja em amor (Efésios 4.15). No século seguinte, o séc. XX, outras abordagens ao conceito de Igreja foram empurradas para o público e implementadas, mas sempre privilegiando aspectos visíveis e materiais em detrimento da essência mística e espiritual do Corpo de Cristo.

A esse respeito, nada novo, apenas a recorrência de um antigo problema. Quando Davi teve a “brilhante” ideia de construir um templo a Iavé, este rechaçou o projeto mostrando que há séculos vivia entre o povo que tirara do Egito e era bom que pudesse continuar assim (2Sm 7.1-7). Davi insistiu e foi permitido a ele levantar a arquitetura. Qual o resultado da mudança no conceito de relacionamento Deus-povo? Jeremias chamou o templo de “covil de salteadores” (Jeremias 7.1); Habacuque, usando trecho do Salmo 22, disse que a violência no país tinha origem entre os oficiais do templo (Hc 1.2- 3). Acrescentou que “[...] o justo viverá por sua fidelidade” (Hc. 2.4) e que a confiança no Senhor deveria ser fortalecida, porque “O Senhor, porém, está em seu santo templo” (Hc. 2.20), isto é, no santuário no céu, não no Templo de Jerusalém, onde crimes e roubalheira eram cometidos.

Questionado pela mulher samaritana sobre em qual templo era adequado adorar, Jesus disse que nem em Gerizim, nem em Moriá, porque o Pai procura verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.21-24). Ao sair do templo num final de tarde, seus discípulos admirados com a estrutura e certamente o reflexo do Sol nas portas revestidas a ouro, Jesus predisse a destruição da estrutura (Mt 24.2). No final da Bíblia, João tem uma visão da cidade santa que aguardamos e, ao vê-la, exclama: “Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo” (Ap 21.22). Isso mostra que Deus resgatou o desejo antigo de habitar com o seu povo e que Davi deslocou para uma construção humana e temporal. Bem avisou Paulo quando disse que os fiéis reunidos são o templo do Espírito: “Acaso não sa- bem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de vocês mesmos” (1Co 6.19).

Que mais temos modificado em nossa vivência espiritual? Que conceitos e valores temos mudado ao transmitir a fé cristã aos antigos e novos membros, bem como aos de fora da Igreja? Que interesses temos colocado à frente das prioridades de Deus em relação ao seu povo? Há muitas outras perguntas como essas que precisam ser feitas constantemente e respondidas com muita honestidade, sob risco de mudarmos o futuro da Igreja a partir de nossas mesquinharias. O biólogo Stephen Jay Gould estava certo quando afirmou: “Se nós a ferirmos [a Terra], ela vai sangrar um pouco, livrar-se de nós e curar-se”. Se nós interferirmos indevidamente nos destinos da Igreja, Deus irá nos cobrar por isso e no final da história fará as coisas como devem ser feitas, segundo a sua vontade, como vimos em Apocalipse 21.22. Então, será melhor nos antecipar participar dessa vontade, pois ela é a boa, perfeita e agradável de Deus (Rm 12.1-2).▣


MAGNO PAGANELLI é doutorando em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie) e é professor de Religiões Comparadas 1 e 2 no Betel Brasileiro.


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