• Editora Literal

A reforma como paradigma de mudança social



Justo L. González


A primeira vista, a questão da Reforma como paradigma de mudança social não é difícil de abordar. Muito tem sido escrito sobre o impacto da Reforma na sociedade da época, levando-a a uma reestruturação. Há uma certa medida de verdade nisso. Certamente, a Reforma limitava não apenas o poder do papado, mas também o de muitos reis e nobres – mas não em todos os casos. A longo prazo, as consequências da Reforma foram enormes. Entre outras coisas, a Holanda tornou-se independente da Espanha, e o rei da Inglaterra foi decapitado. Bem conhecida é a tese segundo a qual o calvinismo foi um fator importante no surgi- mento do capitalismo. E é absolutamente verdade que muitas das constituições modernas, com ênfase no equilíbrio de poderes, de modo que o governo não esteja centralizado no poder executivo, legislativo ou judicial, mas seja distribuído entre todos eles, é um reflexo do princípio calvinista segundo o qual há uma profunda perversidade em todos os seres humanos, de modo que se uma pessoa ou um grupo detiver poder absoluto, eles abusarão dela.

Mas antes de nos apressarmos demais para nos glorificarmos das consequências da Reforma, devemos lembrar de que nem todas são cor-de-rosa. O desempenho de Lutero, no caso da rebelião dos camponeses, é bem conhecido e não muito louvável. A Genebra de Calvino chegou a um nível de intransigência King James, o famoso tradutor da Bíblia para o castelhano, que tinha fugido de Sevilha para refugiar--se em Genebra, por fim decidiu a partir de lá e declarar que Genebra se tornara em uma nova Roma. No século seguinte, a oposição entre protestantes e católicos levou a uma guerra que durou 30 anos e envolveu praticamente todo o continente, e essa foi a guerra mais sangrenta que a Europa já viu. E a tudo isso temos que acrescentar: Lutero, Calvino e outros reformadores conhecidos realmente vêm a nós com fortes tendências individualistas que começaram a invadir a Europa nos séculos XVII e XVIII, e tornou-se predominante no XIX. De acordo com estas tendências, o elemento importante em todas as considerações religiosas, morais, políticas ou econômicas é o indivíduo. Economicamente, o indivíduo que possui os recursos tem absoluta liberdade para usá-los como quiser, mesmo à custa daqueles que não o fazem. Na política, o importante era existir uma sociedade em que todos pudessem fazer o que mais gostassem. Algo semelhante aconteceu na moral. No campo da religião, esse mesmo individualismo levou a uma espécie de religião na qual o importante é a minha fé e a minha salvação, e o principal papel da igreja ou comunidade de fé é apoiar a minha fé e a minha salvação. Nessa perspectiva, Lutero nos foi apresentado como um solitário campeão, que naquele dia 31 de outubro, se atreveu a desafiar os poderes religiosos e políticos. O protestantismo era então defensor das liberdades individuais. Lembro--me de como usamos isso quando eu era jovem e estávamos em constante controvérsia com o catolicismo. Insistimos em que estávamos propondo a liberdade de pensamento individual, liberdade de culto, liberdade de reunião, liberdade de opinião, livre exame das Escrituras e outras coisas semelhantes. Tudo isso era verdade, e não há dúvida de que, desde a chegada do protestantismo na América, a proposta foi defender todas essas liberdades. O que não é verdade, embora seja difícil de reconhecer, é que a maioria dos reformadores não defendia tais liberdades. Nós devemos reconhecer que a compreensão de Lutero e da Reforma que chegou até nós por meio do filtro individualista não é a verdade completa e nós também somos obrigados a reconhecer essas liberdades individuais que são tão valiosas frequentemente ainda são utilizadas para oprimir os pobres, explorar os trabalhadores e desapropriar os camponeses. Logo, se estamos falando da Reforma como paradigma da mudança social hoje, temos de refinar nosso estudo. Precisamos revisitar esse período e seus líderes para melhor compreendê-los, e de uma forma que não se deixe influenciar pelo individualismo que até recentemente dominou a interpretação da Reforma e reformadores. Naturalmente, a nova interpretação necessária na América deste século não é algo que possamos descrever aqui em poucas palavras. Então, darei uma grande ênfase aos reformadores e para entender melhor e ver como uma nova compreensão pode ser um paradigma para a mudança social na América, e como os acontecimentos do passado, e as condições que ainda persistem, podem nos levar a uma nova compreensão da mudança social e sua relação com o evangelho. Especificamente, o que proponho é que voltemos ao assunto do sacerdócio universal dos cristãos e o examinemos mais profundamente. Todos nós sabemos que uma das principais ênfases da Reforma foi o sacerdócio universal dos cristãos. Sabemos disso não apenas porque nos contaram e estudamos, mas também porque durante muito tempo tem sido um assunto frequentemente usado em polêmicas evangélicas contra os católicos. Lembro-me das vezes em que, quando jovem, estava feliz por encontrar um padre para discutir e mostrar a ele que não precisava dele para alcançar Deus. Lembro--me também de como, naqueles mesmos dias, em minhas tentativas de evangelizar meus colegas dizia-lhes que não era necessário se achegar até nós sacerdotes para encontrar Deus, e que cada um era sacerdote a si mesmo e poderia diretamente ir ao trono do Altíssimo. Em meio a uma sociedade com fortes tendências anticlericais, que o argumento era poderoso. Agora muitos anos se passaram, e eu percebi que nessas discussões eu mesmo não tinha entendido o que era sacerdócio universal dos cristãos. Lendo cuidadosamente Lutero, Calvino e os outros reformadores, vejo primeiro que o que eles estavam fazendo era retornar ao que poderia ser visto na literatura cristã mais antiga. E vejo também que o sacerdócio universal dos cristãos tem dimensões que eu não suspeitava até então, mas importantes tanto para a vida da Igreja e sua relação com o mundo ao seu redor, como para a mudança social que buscamos. Em suma, na época eu entedia o sacerdócio universal por ninguém necessitar de outro sacerdote, uma vez que já era seu próprio sacerdote. Esse pode ter sido um ponto controverso em nossos conflitos com o catolicismo romano, mas não está certo ou melhor, está correto, mas não é tudo o que o sacerdócio universal dos cristãos significa. O sacerdócio universal não significa apenas ou primariamente que todos são sacerdotes de si mesmos, mas sim que somos todos sacerdotes para todos. A diferença entre esses dois entendimentos é fundamental. O primeiro, aquele que aprendi quando jovem, trazia a marca do individualismo que tomou conta da cultura ocidental, particularmente no século XIX, e cuja herança ainda pesa sobre nós. Se cada um é seu próprio sacerdote, isso significa que não precisamos de outros. Não é apenas do sacerdote ordenado que não precisamos mais, mas não precisamos do irmão ou irmã que está ao nosso lado. A igreja, em vez de ser um Corpo cuja cabeça é Jesus Cristo e que, para participar na vida da cabeça, é preciso estar enxertado no corpo que é um conglomerado de indivíduos, cada um deles vindo di- retamente a Deus sem necessidade de outros. É por isso que muitas vezes ouvimos alguém dizer: “Sou cristão à minha maneira, não preciso da igreja”. É por isso que há crentes que mudam de igreja como mudam de camisa, porque não gostaram do que a irmã Fulana disse, ou porque aquele outro pastor prega melhor, ou porque nessa outra igreja eu gosto mais de música, ou seja o que for. É por isso que muitas igrejas estão divididas, porque alguns pre- ferem um tipo de culto, mas esquecem que, quando estamos juntos, não estamos adorando apenas para nós mesmos, mas também para os outros. Uma música que eu não gosto, mas que ajuda meu irmão ou irmã a expressar a sua experiência com Deus, tenho que valorizar, não porque seja boa ou ruim, mas porque esse irmão ou irmã faz parte do corpo de Cristo ao qual eu também pertenço. O culto não é apenas a minha adoração, mas a adoração de todo o Corpo nas suas diversas formas. Se claramente entendemos que o sacerdócio universal dos cristãos não é privado e individual, mas comunitário, os cristãos que preferem outra música vão se alegrar comigo na minha música, embora esteticamente não gostem; e eu me regozijarei com eles e por eles. O individualismo nos leva a pensar que a igreja é um assunto um tanto supérfluo, um tipo de ajuda para a fé, que os líderes da igreja muitas vezes se deixam levar por um espírito de competição, tentando assegurar que nosso coro é melhor que os outros, que nosso culto tem mais a aparência de um programa de televisão bem coordenado, e que todos saem felizes, mas o sacerdócio universal dos cristãos não significa que cada um é seu próprio pastor, mas sim que cada um é sacerdote para todos e que juntos somos sacerdotes para o mundo mesmo para o mundo que não acredita, nem ora, nem mesmo busca a Deus. Quando compreendido, o sacerdócio universal, em vez de se desintegrar a si próprio à sua maneira para com Deus, nos une em um ministério comum em que nos aproximamos de Deus, não como sacerdotes individuais, mas como um povo sacerdotal. Nosso sacerdócio não consiste em uma linha privada para se comunicar com Deus sem precisar de mais ninguém, mas em uma rede na qual contamos com todos os outros como sacerdotes para cada um e na qual cada um é um sacerdote para todos os outros. Há um certo paralelismo entre esses dois modos de entender o sacerdócio universal dos cristãos e a maneira pela qual grandes desastres revelam duas maneiras de compreender nosso lugar na comunidade. Por um lado, casos tristes de acumulação, pessoas que só se preocupavam consigo mesmas e que expõem as tristes consequências do individualismo que nos domina. Mas, por outro lado, aqueles que partilham o que têm, que ajudam com as necessidades mais simples e básicas para a superação de tragédias comunitárias, pois entendem a necessidade de ações comunitárias. A primeira ilustra o perigo do sacerdócio universal quando é entendido apenas no sentido de que cada um de nós tem acesso direto a Deus. O último ilustra a beleza do sacerdócio universal quando o sentido de que todos somos sacerdotes para todos demais. Isso significa que, afirmando o sacerdócio universal dos cristãos, não estamos apenas derrubando a hierarquia que afirma que só podemos alcançar Deus através dela, mas também elevando toda a igreja ao nível sacerdotal. Por outro lado, embora Lutero tenha certamente usado o tema do sacerdócio universal para desfazer o que ele chamou de “o cativeiro babilônico da igreja”, temos que afirmar que esse sacerdócio não é invenção de Lutero, mas tem profundas raízes nas Escrituras e na mais antiga tradição cristã. Além disso, a ideia do sacerdócio universal dos cristãos era vista na antiga igreja como o cumprimento da promessa feita uma vez a Israel, quando Deus disse: “Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Êxodo 19.6). Bem conhecidas são as palavras de 1Pedro, que afirma que somos “sacerdócio real, nação santa” (1Pe 2.9). No início de Apocalipse, João declara que Jesus Cristo, que é “o soberano dos reis da terra”, é também aquele que “nos constituiu reino e sacerdotes para servir a seu Deus e Pai” (Ap 1.5-6). Mais tarde, no mesmo livro, João nos apresenta um hino que inclui as palavras “Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra” (Apocalipse 5.10). E quase no final, João refere-se àqueles que “serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele durante mil anos” (Ap 20.6). Sem se deixar levar pelas fascinantes questões relacionadas à interpretação do Apocalipse, podemos pelo menos notar que em todas essas passagens, tanto do Apocalipse como da Epístola de Pedro, a afirmação sobre o sacerdócio dos cristãos acompanha a ideia paralela de que eles são ou serão reis ou, como diz Pedro, um “sacerdócio real”. É apropriado fazer uma pausa aqui para salientar que as palavras do Novo Testamento que acabei de citar estão intimamente relacionadas com o que sabemos sobre a adoração na igreja primitiva. Os documentos mais antigos que temos sobre o batismo confirmam o que lemos nas passagens que acabei de citar. A partir desses documentos antigos, sabemos que, quando um gentio pediu o batismo, passou por um processo de aprendizado de dois ou mais anos. Quando ele foi finalmente batizado, r cebeu um manto branco e ungido com óleo após o cerimonial. Vestiu-se de branco, não como poderíamos pensar hoje, como um sinal de pureza, mas sim como uma vitória, porque nos tempos antigos o branco não significava pureza, mas vitória. E foram ungidos porque no antigo Israel ungiram-se reis e sacerdotes, e agora a pessoa recém-batizada, ungida como os antigos reis e sacerdotes de Israel, passa a fazer parte do sacerdócio real, a igreja. Aqui é importante notar que, assim como o sacerdócio universal dos cristãos não é puramente individual, também não é o batismo. O batismo não é apenas um sinal de morte para a vida antiga e ressurreição para o novo, mas também um sinal de que somos enxertados neste corpo santo cuja cabeça é Jesus Cristo. E isso está intimamente relacionado com o sacerdócio universal, porque o que acontece no batismo é que, por meio do Espírito Santo, o Sumo Sacerdote, o próprio Jesus Cristo, nos une ao seu corpo. Somos sacerdotes porque somos membros do corpo do Sumo Sacerdote. Na realidade, não há outro sacerdote além dele, e nosso sacerdócio é válido porque, em virtude de nosso batismo, somos parte deste corpo cuja cabeça é o único e soberano Sumo Sacerdote. Como se para confirmar o significado dessa unção que teve lugar fora do batismo, após a cerimônia os neófitos são levados para o local onde foi montado o resto da igreja para celebrar a ceia ou comunhão do Senhor. (E aqui, para entender isso, é preciso esclarecer que o culto da igreja antiga consistiu em duas partes claramente definidas. A primeira, o “serviço da Palavra”, foi lida e explicou as escrituras, hinos foram cantados e subiram orações. No final da primeira parte do culto, ele dizia adeus àqueles que ainda estavam se preparando para o batismo, e passava a comunhão “serviço de mesa”). Os recém-batizados com suas vestes brancas, e agora com o selo da unção sacerdotal, pela primeira vez faziam parte desse serviço de comunhão. Naquele “serviço da mesa”, antes de tomar a comunhão pela primeira vez, também pela primeira vez participavam de uma oração especial dedicada à intercessão e comumente conhecida como a “oração dos fiéis”. Naturalmente, o neófito participara muitas vezes antes da oração no serviço da Palavra. Mas esta foi uma oração especial da qual ele agora participa como membro daquele corpo sacerdotal que é a igreja. Oraram, nessa ocasião, não somente pelos que ali estavam presentes; e não apenas para o resto da igreja local a que pertenciam; não apenas para toda a igreja universal; mas para o mundo inteiro. Os recém--batizados haviam se tornado parte daquele sacerdócio real, daquele povo sacerdotal que é a igreja e, como parte desse sacerdócio, agora elevavam suas orações ao trono celestial, implorando tanto pela Igreja como pelo mundo. Nessa oração clamaram não apenas pelos cristãos e pelas pessoas boas, mas por todos os outros, por aqueles que não oraram, e até mesmo pelo imperador e pelo império que perseguira a igreja! Essa é a verdadeira natureza de um povo sacerdotal, de uma igreja que realmente acredita em seu sacerdócio universal. É importante notar que essa compreensão – como toda boa doutrina teológica – tinha dimensões radicais. A pessoa recém-batizada, talvez uma escrava, talvez uma mulher humilhada pelo poder de seu marido, tinha agora tal poder que nem o próprio imperador alcançava. Tinha o poder de clamar ao rei de toda a criação não apenas por si mesmo, mas também por aquele pequeno rei que se chamava senhor do império. Certa- mente, os cristãos não concordavam com tudo o que os impe- radores faziam ou decretavam, nem mesmo com a maioria das coisas que faziam ou decretavam. Mas mesmo assim eles ora- vam por eles, para que Deus os dirigisse e sustentasse. Eu, po- bre escravo, nunca fui capaz de tomar decisões sozinho, agora posso me levantar com meus irmãos e irmãs para o trono do Imperador Celestial. Eu, uma mulher humilhada pelo cônjuge, agora posso subir ao trono do Pai que está acima de todo pai. E não devemos esquecer que a ideia do sacerdócio estava ligada à ideia de realeza. Aquele escravo e aquela mulher tinham sido ungidos como eram anteriormente ungidos reis e sacerdotes, e é por isso que eles agora eram um sacerdócio real. Talvez sua nova realeza ainda não tenha sido vista. Mas não devemos esquecer que até mesmo o próprio rei Davi, quando foi ungido por Samuel, não era aquilo para o que havia sido ungido até muito mais tarde. É por isso que se fala no Apocalipse de um sacerdócio atual e de um reino vindouro: “Você nos fez um reino e sacerdotes para o nosso Deus e nós reinaremos na terra”. Em outras palavras, nós já somos sacerdotes, e pela mesma unção que nos faz sacerdotes, seremos reis.

E isso também é baseado no fato de pertencermos a um corpo cuja cabeça é Jesus Cristo, que está assentado à destra de Deus. Por- que nossa cabeça foi levantada dos mortos, e porque somos parte de seu corpo, sabemos que nem a morte tem poder sobre nós. E porque nossa cabeça subiu aos céus e está sentada à direita do Pai, sabemos que estamos destinados a sentar com ele ao lado do grande trono celestial. Agora, uma vez que o culto foi e ainda é o melhor caminho para formar a dos cristãos, isto também se manifestou no culto. Um detalhe que muitas vezes é esquecido, mas que descobrimos ao ler os antigos documentos cristãos, é que embora fosse costume ajoelhar-se e curvar-se diante de Deus para orar, e particularmente para receber petições, no primeiro dia da semana, o dia em que foi celebrada a ressurreição do Senhor, os cristãos não se curvaram ou se curvaram para orar, mas em vez disso se aproximaram de Deus em pé, de frente para ele em atitude e confiança de um príncipe que se aproxima do trono de seu pai, e não o de um peticionário pobre que vem pedir um favor. Aquele primeiro dia da semana, dia da ressurreição do Senhor, é também o dia da nossa adoção, e, portanto, naquele dia nos aproximamos de Deus, sim, como sacerdotes, mas também como filhos adotivos do rei, como “sacerdócio real”. Mais uma vez, não acredito que o caráter radical e até subversivo de tal doutrina e tal prática deva ser enfatizado. Um pobre pescador, aquele escravo miserável, aquela mulher que vem à igreja com as marcas do abuso físico que sofre, são todos da realeza! Talvez estejamos em uma condição como a de Davi quando Saul ainda governava. Mas, como Davi, sabemos que o Senhor que nos chamou e ungiu não só nos fez sacerdotes, mas cumprirá sua promessa de nos tornar um sacerdócio real. Mais uma vez, aqueles cristãos poderiam dizer: “Você fez de nós um reino e sacerdotes para o nosso Deus, e nós reinaremos na terra”. Ou, como o apóstolo Paulo diria, “sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, sua vida, aparecer, então você também será manifestado com ele em glória “. Se nos voltarmos então para Lutero e para a Reforma Protestante, podemos ver como a maneira pela qual este sacerdócio universal dos cristãos foi entendido era uma expressão, por um lado, do caráter libertador desse movimento. Mas, ao mesmo tempo e por outro lado, vemos que, ao não enfatizar da mesma forma que era um sacerdócio real, os reformadores davam si- nais de sua submissão à ordem existente. Sobre a dimensão libertadora do sacerdócio universal, não explicam muito. Quando Lutero falou das condições da igreja em seu tempo como um cativeiro babilônico, significava a hierarquia da igreja, uma vez que o rei de Babilônia tinha tomado posse da igreja. O sacerdócio, desde o Papa até o último padre em uma paróquia, tinha acesso a Deus, proibindo o acesso a quem não se deparar com eles. Foi precisamente essa visão da função sacerdotal que estava por trás do escândalo de venda de indulgências. Contra isso, Lutero voltou para a antiga doutrina do sacerdócio universal dos cristãos, à alegação de que não somos sacerdotes que receberam a ordenação especial, mas que o batismo em si é um meio para servir como sacerdotes do povo sacerdotal. (Observe mais uma vez que eu não estou simplesmente dizendo que Lutero afirmou que todos poderiam ser seus próprios sacerdotes, mas sim que somos todos sacerdotes com todos os outros e para todos os outros até mesmo por aqueles que não fazem parte da igreja). Certamente foi uma mensagem libertadora, pois o acesso ao trono da graça não estava sob o controle de uma hierarquia, mas era a prerrogativa de todo o povo de Deus por ser povo de Deus, o próprio sacerdócio santo. Nesse sentido, quando Lutero afirmou o sacerdócio universal dos cristãos, ele estava fazendo uma declaração revolucionária e libertadora. Consideremos por um momento o que poderia pensar que o servo ou a mulher humilde foram tornados sacerdotes e podem se aproximar do trono de Deus, não só para orar por suas próprias necessidades, mas também para orar pelas necessidades de todo o universo. Mas também o outro lado da moeda. A primeira face é que, diante da oposição da hierarquia eclesiástica, os principais reformadores usaram o princípio do sacerdócio universal dos fiéis, e o fizeram efetivamente. Mas ao mesmo tempo e esta é a segunda face em parte porque eles precisavam do apoio das autoridades instituídas, e particularmente no caso de Lutero e seus partidários dos príncipes alemães, os reformadores disseram pouco sobre o outro elemento que nas Escrituras, é comumente ligado ao sacerdócio universal: o fato de que aqueles que foram ungidos como sacerdotes em seu batismo também naquele mesmo batismo foram ungidos como reis. O resultado é que, depois disso, a maioria das pessoas protestantes aprendeu a pensar mais sobre a unção sacerdotal do que sobre a unção real. A consequência é que talvez oremos como sacerdotes, mas não nos comportamos como reis. As duas dimensões da unção deste sacerdócio real não podem ser separadas. Se dissermos simplesmente que todos os cristãos são filhos do grande Rei, o resultado será um orgulho excessivo, um sentimento de superioridade e desprezo para com aqueles que podem não ser filhos do rei. Tal visão é frequentemente encontrada nas igrejas que parecem se considerar melhores do que o mundo ao seu redor, e em vez de se preocuparem com o mundo primeiro, se preocupam em se mostrarem superiores. Se, por outro lado, dissermos simplesmente que somos todos sacerdotes e nos esquecemos da nossa realeza, podemos cair numa atitude servil, como se a nossa função fosse nada mais do que pedir humildemente a Deus e pedir-lhes com igual humildade – por assim dizer, com o chapéu na mão – para os pequenos reis que se apresentam como deuses, para os políticos pelos quais somos apenas um voto, e para os ricos para quem somos apenas consumidores. Uma consequência da ênfase na unção sacerdotal e não na real tem sido que muitos cristãos passaram a acreditar que como sacerdotes é sua responsabilidade se aproximar de Deus, mas que não cabe a eles defender seus direitos ou os de outros, afirmar sua liberdade ou insistir em sua dignidade. Muitas vezes ou- vimos nas igrejas que podemos nos aproximar diretamente de Deus. Mas raramente ouvimos que, como seres feitos à imagem de Deus, e como reis que já foram ungidos e só esperam nossa coroação, temos que oferecer resistência a tudo que ofende essa imagem divina ou nega nossa dignidade. É por essa razão que muitas vezes o pobre camponês que chega à igreja, dominado pelo seu sentimento de pecado, mas também pela miséria em que vive, provavelmente ouvirá que através da fé ele alcançará a re- missão do seu pecado. Mas ele raramente ouvirá que a miséria em que vive se opõe aos desígnios de Deus. Em resumo, o que eu disse até agora é que, bem entendido, o sacerdócio universal dos cristãos inclui: Primeiro, como sempre dissemos, não há necessidade de um sacerdócio especializado autorizado por alguma hierarquia eclesiástica para alcançar Deus. Que Deus, como o pai amoroso da parábola, nos aguarda de braços abertos, e que ninguém tem o poder de nos bloquear no caminho do retorno a Deus. Segundo, que embora possamos chegar diretamente a Deus, devemos fazê-lo não apenas em nosso próprio nome, mas também como membros de todo um povo sacerdotal.

Terceiro, a consequência do segundo ponto é que, como sacerdotes, temos a obrigação de trazer toda a criação para o trono celestial. Quarto, que tanto na Bíblia quanto na antiga igreja, o sacerdócio universal está geralmente ligado à adoção dos cristãos como filhos do grande rei. E quinto, que por uma série de razões os reformadores, e muito mais as gerações que os seguiram, enfatizaram o sacerdócio universal dos cristãos, mas disseram menos e até esqueceram que aqueles mesmos cristãos que foram ungidos como sacerdotes também foram ungidos como reis. Enquanto a ênfase no sacerdócio universal dos cristãos nos ajudou a neutralizar o clericalismo que fez tanto mal à igreja, a falta de ênfase no reinado universal dos cristãos levou-nos a deixar de lado um elemento importante, o da mensagem bíblica e da experiência dos primeiros cristãos – um elemento nos nossos dias poderia ajudar a enfrentar as injustiças e iniquidades que nos cercam. Por outro lado, antes de continuar com o tópico, é importante ressaltar que este sacerdócio universal e real dos cristãos tem que ser manifestado no culto. Ao longo da história, a adoração moldou a fé dos cristãos; que a maneira pela qual alguém é adorado também determina o que se acredita; ou, para usar a frase técnica que os historiadores usam, que a regra de adoração se torna a regra da fé. Dentro desse contexto, devemos começar por reafirmar o que dissemos naqueles dias de juventude, que em nosso culto todos são convidados a participar ativamente. É por isso que criticamos nossos camaradas que no domingo iam “ouvir a missa”, como se fosse um espetáculo ou algo que os sacerdotes fizessem apenas para ser visto. Nos melhores tempos da história da igreja, o culto tem sido o trabalho, não dos líderes da igreja, mas do povo. É daí que vem a palavra “liturgia”, que na verdade não tem nada a ver com polis, mas simplesmente significa “o trabalho do povo”. No culto, nesse trabalho do povo, todo esse sacerdócio eleva sua voz comum ao trono do Altíssimo para orar por si e por toda a criação. Hoje me preocupo com os cultos que se tornam espetáculos no estilo do que vemos na televisão, e para os quais os fiéis vão da mesma forma que vão ao teatro. Em outras palavras, se você não vai ouvir a missa, verá o culto. Em alguns casos nós damos àqueles que os dividem no culto o título de “adoradores”. Isso é uma usurpação, pois os adoradores são, na verdade, todos do povo de Deus, todo esse sacerdócio real e santo que juntos elevam suas orações ao alto. Na adoração, como em toda a vida da igreja, somos todos sacerdotes, todos somos adoradores. Muito mais poderia ser dito sobre isso e sobre a maneira pela qual nossa adoração deve ser a expressão e a prática do sa- cerdócio universal. Mas ainda precisamos adicionar uma ter- ceira dimensão do nosso sacerdócio universal. Essa terceira dimensão é a visão que derruba nosso sacerdócio fora das es- feras eclesiásticas, e torna a igreja um povo sacerdotal que é responsável não só por si, mas também por aqueles que os rodeiam. A igreja não ora apenas por si mesma, e isso tem im- plicações sociais. Muitas vezes nós, que com confiança nos aproximamos do grande Rei de toda a criação para receber nossas petições e interceder pelos outros, parecemos temer os reis pequenos que governam nossa ordem social, política e econômica. Se a igreja se atreve a comparecer perante o Rei da Criação pe- dindo vida e justiça, não deveria também ter a coragem de dirigir-se aos reis de nossos dias, àqueles que governam a ordem social e política, a defender a vida? Exigir justiça e liberdade? Se a igreja ousa pedir ao grande Médico do Universo pela saúde dos doentes, não deveria também ter a coragem de exigir que os sistemas médicos sejam acessíveis até mesmo aos mais pobres? Se a igreja ousar aparecer diante do Dono da Criação para pedir pão para os famintos, roupas para os nus e abrigo para os sem-teto, não deve também ter a coragem de apontar, condenar e desfazer a injustiça que produz fome, pobres e indefesos? O sacerdócio universal dos cristãos, juntamente com a linhagem real de todos os cristãos, confere um caráter particular a essa luta por justiça e libertação. Se somos todos sacerdotes uns dos outros, e todos os sacerdotes para toda a criação, a mudança social de que estamos falando não pode ser a mudança repetida de “tirá-lo para me colocar”. Tem que ser mais uma questão de “decolar para nos colocar todos”. Se o sacerdócio universal não é aquela visão individualista que tive em minha juventude, as liberdades pelas quais temos que lutar também não se limitam às liberdades individualistas da modernidade. Não é uma questão de todos fazerem o que gostam ou o que lhes convém, mas é uma questão de todos nós trabalharmos para o bem de todos. Não se trata apenas de procurar melhores governantes, mas também de todos participarem ativamente da governança da comunidade. E tudo isso não é simplesmente uma dimensão social que é adicionada ao evangelho. A boa notícia do evangelho não é so- mente que graças a Jesus Cristo podemos ir ao céu, mas tam- bém que, graças a esse mesmo Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote e Rei dos Reis, somos convidados dos mais ricos aos mais po- bres, dos mais famintos aos mais opulentos, para fazer parte desse sacerdócio real, dessa nação santa, que é um sinal e as primícias do Reino vindouro. E isso também nos convida a todos, do mais opulento ao mais faminto, do mais pobre ao mais rico, a viver hoje e organizar nossa sociedade e nossos relacionamentos como aqueles que realmente acreditam que somos “uma linhagem escolhida, um sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para sua admirável luz.” Assim seja!


JUSTO L. GONZÁLEZ é nascido em Cuba e radicado nos Estados Uni- dos, é graduado pelo Seminário Unido de Cuba, com mestrado e douto- rado pela Universidade Yale. Tem experiência de ensino de história da igreja em diversos seminários da América Central e dos Estados Unidos, destacando-se ainda por sua prolífica produção literária.

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