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Antioquia digital: a influência da cultura e o discipulado cristão


Magno Paganelli


Uma das igrejas do Novo Testamento que mais atraem a minha atenção é a de Antioquia, de onde partiram Barnabé e Paulo, os primeiros missionários para o mundo gentílico (At 13.1-2). A vida social da cidade e da igreja precisa ser estudada devido às semelhanças com a nossa sociedade.

Antioquia era a terceira maior cidade do Império, com cerca de 150 mil habitantes, dos quais c. 45 mil eram judeus; havia mais judeus em Antioquia do que em Jerusalém. Em tamanho, ficava atrás apenas de Roma, a capital, e de Alexandria, no norte da África, centro de conhecimento e de comunidades judaicas e cristãs, com uma vibrante vida intelectual.

Fundada havia trezentos anos por Selêuco, Antioquia (homenagem a Antíoco) estava localizada num corredor comercial que unia o Oriente ao Ocidente, as longínquas civilizações Indochinesas e a vizinha Pérsia ao centro do Império Romano. Por ela passavam diversas tradições culturais, sociais, religiosas, folclóricas, místicas, filosóficas e muito mais. O helenismo era próprio da cidade, como o culto ao Imperador, somados aos elementos do gnosticismo, religiões asiáticas, chalatanismo babilônico e um templo a Apolo. O desafio dos discípulos não era pequeno.

Nas comunidades judaicas em Antioquia, foi possível estabelecer vínculos com a comunidade local. Enviado de Jerusalém para lá, Barnabé desceu a Tarso e de lá trouxe Saulo para juntos ensinarem o Evangelho aos antioquenos. Depois de um ano de atividades, Lucas escreveu que “Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos” (At 11.26). Ali, se formaram importantes nomes da tradição cristã, como os bispos Inácio e João Crisóstomo.

A pergunta que nos provoca nesse ponto é: o que fizeram ou como agiram aqueles discípulos, numa cultura plural diversa, para se destacarem como “cristãos”? Transportando a situação de Antioquia para a realidade atual, seja nas nossas grandes cidades como no ambiente digital da Internet, penso não ser descabido comparar a vasta oferta e possibilidades existentes ao que temos hoje ao nosso dispor. As nossas opções são mais variadas, combinações de tradições diferentes, reformulações, ressignificações, enfim. Em termos de recorte religioso, de perfil espiritualista, não há limites.

Além disso, ao menos três resistências devemos considerar, uma heresia, uma ideologia e uma religião: o liberalismo teológico (“problema interno”); o ateísmo militante e o islamismo radical. Há as opções de menor envergadura, como a ação de marketing que anunciou a criação do “Corinthianismo”, uma religião para os torcedores do time, as igrejas na Argentina para os devotos de Diego Maradona e nos Estados Unidos para os devotos de Elvis Presley. Faltaria espaço para relacionar os credos mais absurdos.

Na ala mais séria, digamos assim, a Igreja dispõe de opções de publicações para o aprendizado da fé – e não diria “fé genuína”, nem “fé ortodoxa” ou “verdadeira doutrina”, porque no final das contas, todos usam os mesmos rótulos para si e o de hereges para os outros. No mundo selvagem da Internet, os desafios aumentam. Os especialistas ou “especialistas” publicam opiniões as mais variadas, divergentes e hostis em blogs, vídeos, comunidades e tantos outros meios que sequer conheço.

Com tanto conhecimento disponível, é possível preparar os discípulos para lidarem com os constantes ataques à fé cristã? As ferramentas disponíveis para consulta são confiáveis? E o chamado “filtro da Palavra de Deus”, se grupos divergentes a usam para se legitimarem?

Outras perguntas e respostas válidas poderiam ser propostas. Mas ao menos duas considerações precisam ser feitas, uma sobre o funcionamento e outra sobre a operação da Igreja. Ambas passam pelo Novo Testamento. Primeiro, o aspecto funcional da Igreja deve dar atenção aos indícios no Novo Testamento sobre o contato dos discípulos com a cultura circundante. Atenção especial a Paulo, pois ele esteve imerso, ao mesmo tempo que ajudou a formar a identidade da Igreja em Antioquia, levando-os a serem “primeira vez chamados cristãos”.

Ao escrever Efésios 4.11-14, o apóstolo ajustou os termos de uma Igreja com o DNA cristão. Deus designou ofícios, com funções e a finalidade clara “de preparar os santos para a obra do ministério”, isto é, envolver pessoas numa tarefa conjunta, delegada e confiante na direção do Espírito sobre todos e em todos – algo que muitos líderes ignoram: que a Igreja tem um dono que zela por ela. A centralização, a desconfiança da qualidade do serviço a ser feito por outros só faz enfraquecer a ação do Espírito entre os discípulos, operando sobre o falso fundamento de que “fazemos tudo com excelência”. Excelente é quando o Espírito age no Corpo de Cristo distribuindo dons que são postos em uso na liberdade do Espírito.

O objetivo dos ofícios é claro: edificar “o Corpo de Cristo” coletivamente, promovendo a unidade, a maturidade, a relação pessoal plena com Cristo (Ef 4.11-14). Fazendo isso, os discípulos no Corpo deixarão de ser “como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Ef 4.12-13).

Portanto, há uma chave interpretativa contra a infiltração de visões e filosofias estranhas ao Evangelho, quando o assunto são as questões internas da Igreja. Importa o que cremos, porque a partir do credo é que iremos agir. Mas a edificação mútua, a ação amorosa e fraternal e o cuidado do Corpo sempre aparecem antes das pendências e mazelas que o racionalismo impõe ao pensamento teológico. Em outras palavras (1), o serviço vem antes da discussão teológica, mas, inversamente, aprendemos isso lendo o testemunho da Escritura. Em outras palavras (2), discussões teológicas e disputas sobre a validade das teologias x, y ou z serão sempre secundárias diante da essência mesma da fé cristã como atesta o Novo Testamento.

O outro recurso ao qual cada discípulo poderá recorrer, individualmente, a fim de evitar cair presa de interpretações acentuadamente grotescas e visivelmente destoantes do viés bíblico é discernir o momento histórico em que vivemos. Erros do passado precisam ensinar os discípulos hoje, pois muitos não aprenderam com o passado (At 4.11; 5.30). Nas primeiras décadas do século I, o Espírito Santo agia para revogar a sentença de Noé sobre o destino de seus filhos. Assim, o cananita etíope (At 8), o semita Saul (At 9) e o jafetita Cornélio (At 10) foram alcançados e reconciliados com Deus. Em Atos 11, surgiu uma Igreja que entendeu o sentido plural de sua missão em vez de militar em favor de causas erradas.

Noto que a Igreja brasileira tem se inclinado para a defesa de temas estranhos ao Espírito do Evangelho. Isso decorre da leitura do Antigo Testamento alienada do Novo, que leva a tirar conclusões da Nova Aliança sem o filtro necessário. Há tantos exemplos que não podemos sequer começar a mostrá-los. No entanto, fará bem procurar no Novo Testamento quais significados foram dados aos antigos ritos, ditos promessas e profecias, para não confundir o que Deus disse à nação de Israel com as promessas feitas à Igreja. Aliás, a Bíblia traz promessas de Deus para Israel, para a Igreja e para o mundo pecador. Confundir os destinatários das promessas de Deus tem trazido prejuízos sérios a muitos cristãos.

Se, no passado, os povos foram separados e a vinda de Jesus ocorreu para reconciliar a todos com Deus por meio do Seu próprio corpo, isso significa que a Igreja e a sua mensagem não devem ir no mesmo sentido dos acontecimentos do nosso tempo. Em um ambiente que se separou de Deus matando o Salvador do homem, Antioquia foi uma igreja que promoveu a reconciliação pela mensagem do Evangelho. A igreja não pode ser uma alternativa cultural interessante, ela deve ser a melhor – senão a única – opção espiritual, a única que reconcilia o homem com Deus. Observar isso ao assimilar este ou aquele ensino ou teologia parece ser uma atitude sábia (Pv 11.30).

Paulo falou em reconciliação em quatro importantes textos. Em Romanos 11.15, especificamente para Israel; em 2Coríntios 5.18-20, Efésios 2.14-18 e Colossenses 1.19-22.

Resumidamente, a teologia do apóstolo Paulo foi construída a partir da ressurreição de Jesus (nunca sobre o seu passado) e considerando a promoção da paz, isto é, a reconciliação do pecador com Deus. “Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem [ou palavra] da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus.” (2Co 5.18-20, ênfases acrescentadas)

A raiz da palavra reconciliar significa restaurar, restabelecer, curar. A igreja deve curar as pessoas, não adulá-las, não enfeitiçá-las. E para isso, pode usar a Palavra que corta e opera, curando, mas não usar uma filosofia que ilude e encanta, mas mata. Ideologias têm se infiltrado nas pregações, nos discursos, nos textos dos livros e por toda parte. Mas acredito que esses dois filtros, a edificação interna do Corpo e a promoção da paz aos de fora, são proteções contra as muitas armas forjadas contra a operação de Deus por nosso intermédio. ▣


Magno Paganelli é doutor em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie) e é professor de Religiões Comparadas 1 e 2 no Betel Brasileiro.

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