• Editora Literal

Cristianismo, religiosidade e missão transcultural


Claudemir De Oliveira Silva


É sempre importante meditar sobre crenças, ritos, cerimônias e a nossa missão como Igreja, nem tanto para rever os nossos conceitos e alicerces, porque se estivermos arraigados no Cristo ressurreto, o nosso posicionamento no Corpo será sólido e inabalável. A necessidade dessa reflexão é mais para avaliarmos se temos nos embaraçado saindo do foco bíblico; se somos mais religiosos do que agentes de transformação; se concentramos a nossa religiosidade mais na ortodoxia do que na ortopraxia; se a preocupação com os formalismos da religião tem vedado os nossos olhos para a realidade espiritual do mundo; se nos desviamos da urgência da missão; se deixamos o que não é prioritário tomar lugar do que é essencial, a Grande Comissão.

Não sugiro que as coisas do templo sejam descartáveis ou que não tenham a sua relevância. Exponho e alerto, que a nossa vida em Cristo não pode ser vivida entre quatro paredes, da casa para a igreja ou vice-versa. Como se denota nos evangelhos e nas cartas paulinas, o cristianismo nunca se fundamentou como uma religião essencialmente ritualística e fechada em si mesma. Portanto, não podemos nos concentrar em festas, movimentos, idas e vindas aos cultos, sem ações práticas como povo comissionado. Do contrário não passaremos de legalistas, que não obedecem e nem se mobilizam para com a proclamação das Boas-Novas até os confins da Terra.

Como modelo e pedra de esquina, Jesus é a peça-chave do que denominamos o cristianismo. Sem a pessoa do Nazareno, não existiria o que conhecemos como a maior religião do planeta. Este fato é tão concreto que ser cristão é ser seguidor de Jesus, não de santos, profetas, reformadores, ideologias e nem de denominações. Ter Cristo como fundamento em todas as áreas da vida é mais do que assumir uma nova identidade. É seguir os seus passos, a fim de resplandecermos não a imagem do homem rei, mas a do servo sofredor que encarnou a MISSIO DEI com gozo e determinação.

Há outros elementos que contribuíram para a consolidação do cristianismo e que fazem parte de suas bases. Falo das doutrinas; dos laços judaicos; do dia de Pentecoste; dos templos; de símbolos como pão, peixe e vinho; dos mártires; do kerigma apostólico; dos princípios e valores morais que nos constituem como discípulos do Senhor. Porém, a principal marca que destacarei está no caráter abnegado que caracterizou o Povo do Livro.

O próprio significado da terminologia ekklesia faz da igreja uma Instituição estabelecida para ser, viver, estar acima e além das demais instituições. Não diminuo as outras repartições governamentais, pois cada uma tem a sua razão de existir. Afinal, toda e qualquer iniciativa que promova a ordem e o bem comum são expressões do Reino de Deus. Ainda que sofra discriminação e não seja reconhecida pelo secularismo, é indiscutível que a “Senhora Eleita” sobrepõe a todos os outros seguimentos do Estado por ser representante de um reino inabalável.

Pensar em cristianismo puro e saudável, na prática, é falar de vida, testemunho e comunhão com Deus e não de religiosidade. O problema desta exteriorização, não é a fé em si, mas o que cremos e fazemos com essa crença e se ela verdadeiramente nos religa em Deus e com a sua obra. Vemos que dentro do cenário brasileiro há um aumento considerável de cristãos, o que é positivo. Todavia, o pouco envolvimento com a obra missionária nos incomoda.

Não custa lembrar que a razão de sermos batizados como santos e sacerdócio real não está no culto e nem na liturgia, mas no dever de nos compadecer dos que sofrem, promovendo a reconciliação dos perdidos. Não sei exatamente quantas vezes Jesus ministrou no templo, mas é nítido que a maior parte de sua caminhada foi nas ruas se relacionando e abrindo os olhos das pessoas.

Por ter vivido e se locomovido na Galileia e seus arredores, o Messias não foi transcultural no sentido literal deste vocábulo, mas os seus ensinos têm essa abrangência.

Na Bíblia, há inúmeros exemplos de que é possível ministrar e alcançar todos os níveis de pessoas, sendo piedosos e misericordiosos, como fizeram os cristãos da Macedônia e da Acaia, em favor dos judeus: “Porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia fazerem uma coleta para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém” (Rm 15.26).

Vejam que na perspectiva de sua constituição, ser ekklesia é ser embaixador(a) do Reino, é assistir, edificar, servir e transformar vivendo sem barreiras. É ser transcultural no sentido mais puro, nobre e elevado do termo e não viver como omissa e transpassada por modismos e sincretismos baratos.

Assim como há ônus para sermos cristãos autênticos, semelhantemente há um imperativo sobre quem carrega o título de cristão. Mais do que andarmos com um crucifixo, usarmos vestes sacerdotais e cumprimos protocolos, todos podemos ser missionários, além fronteira. Primeiro, porque o Deus de missões não está circunscrito e nem é propriedade de ninguém. Segundo, porque temos uma dívida para com os nossos desbravadores. Terceiro, porque fomos compelidos a sair da nossa comodidade para irmos ao encontro daqueles que são a nossa herança, diz os Salmos 2.8.

Como sabemos, missão transcultural é o ato de transpor os nossos limites social, linguístico e cultural, para que o evangelho chegue onde ele não tenha sido anunciado. Sendo assim, a quem pertence este mandato? Ao Senhor? À Igreja? Às agências missionárias? Ou somente a um grupo de obreiros? Claro que esse comissionamento é de todos, pois, como cidadãos dos céus, todos nós fomos constituídos favor de Deus para outrem.

É comum os membros fugirem e enxergarem a Grande Comissão como responsabilidade de uma minoria. Mas essa tarefa é complexa demais para que nos ausentemos dela. Estou convicto de que, a transculturalidade da nossa missão, como remidos do Cordeiro, não se dá apenas se formos ao campo, se enviarmos um vocacionado ou se implantarmos uma congregação entre uma tribo. Ela também se consumará com o nosso ardor pelas nações, com a nossa lembrança, oração, oferta e esforço em de- sejar fazer algo pragmático em prol de uma determinada etnia ou atividade missionária.

Que levantemos os nossos olhos para os campos e nos disponibilizemos a ajudar aqueles que estão clamando pela verdade ou servindo na linha de frente; que sejamos missionários mais do que religiosos; e que tenhamos uma inquietante preocupação para com os não alcançados, pois, isso sim é cristianismo! Que Deus os abençoe. ▣


CLAUDEMIR DE OLIVEIRA SILVA é missionário transcultural da Missão Antioquia e SEMADEM-RJ em Burkina Faso.


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