• Editora Literal

Gênero, ideologia e fé cristã


Magno Paganelli


De tempo em tempo acontecem convulsões sociais como se fossem ondas. Iniciam numa sociedade e infiltram-se em outras, sucessivamente, até chegarem à praia, onde acontece o refluxo. Elas costumam arrastar convenções políticas, religiosas, culturais e econômicas. Manifestam insatisfações e um ecossistema popular oculto ou silente. A chamada Primavera Árabe, no Oriente Médio, em 2011, ocorrida em região geográfica em geral com poucas mudanças vindas da sociedade, é um exemplo recente. Mas podemos lembrar a Reforma Protestante (séc. XVI) e a Revolução Francesa (séc. XVIII).

O início do último século impôs a humanidade uma de suas mais profundas decepções com a Primeira Grande Guerra e 21 anos depois, outra Grande Guerra parece ter sepultado as expectativas criadas para um mundo melhor e mais justo, que não vieram de cima. Desiludidos, grupos minoritários decidiram fazer as coisas do seu jeito.

A partir da década de 1960 a onda hyppie espalhou-se entre a Europa e os Estados Unidos. Suas marolas ainda são sentidas e uma delas fez seu refluxo no discurso da “ideologia de gênero”. Jovens que queriam usar drogas sem proibição, fazer sexo livre sem preconceito e viver em uma sociedade alternativa refinaram o discurso, embalando-o não somente na música e nas roupas psicodélicas, mas pela política e com argumentos elaborados na cozinha intelectual, ao sabor de uma distorção da sociologia, da antropologia e nos chamados “estudos de gênero”.

Os “estudos de gêneros” (gender studies) começaram a ser feitos nas universidades mais ou menos na mesma época; mais tarde abriram o guarda-chuvas para acomodar ou proteger as minorias, como a LGBT. Essa ideologia prega não haver diferenças entre os sexos, já que o modelo biológico universal (macho e fêmea) decorre de convenções sociais ultrapassadas, uma construção histórico-social que visava oprimir a mulher e segregá-la a papeis de menor importância. A ideologia de gênero empurra as convenções naturais mais amplas da biologia para fora da mesa de negociações e propõe um catálogo diversificado de opções para escolha pessoal. Em outras palavras, as informações consistentes dadas pela biologia não importam nem fazem diferença ante a opção do momento – essa sim avaliada com rigor zero no quesito “construção ou convenção social”, uma vez que se trata de ideologia.

Como são desprezadas as diferenças biológicas entre homem e mulher, a instituição da família não pode permanecer. O perfil definidor da instituição “família” deve ser metamorfoseado pela preferência das partes envolvidas sem limite geométrico: poderá ser linear, com os gêneros idênticos, mas também se fala em “uma família” triangular, quadrangular ou “poliamorosa”, um neologismo para casos de relações pessoais que transcendem quaisquer limites e podem ou não envolver coabitação ou relacionamento sexual. A alegada base para as novas combinações é o amor, conceito rarefeito e obviamente ressignificado ao gosto do freguês. Aliás, dar novos significados a palavras e conceitos é atividade incessante e fundamental nesse processo.

Para borrar o papel da família é preciso descaracterizar o papel dos pais, homem e mulher, “dessexualizando-os”, por serem eles os referentes da manutenção dos modelos clássicos naturais. Não faria sentido falar em paternidade ou maternidade, uma vez que tais termos reforçam os quadros que a ideologia de gênero procura remover.


Finalmente, os adeptos precisam promover publicamente a sua agenda, recorrendo-se à imprensa, a mídia em geral, a instâncias de ensino (do jardim da infância à universidade) e demais plataformas de massa. É preciso “ter o microfone à mão” e fazer anúncios incisivos e agressivos do novo modelo, que precisa parecer natural e desejável. Um defensor ou militante da ideologia de gênero, em programa popular de televisão, usa expressões cirúrgicas para incutir o seu discurso: “Todo mundo já aceita isso”, “o brasileiro já se acostumou”, “o povo sabe que é assim” entre outras.

Acontece que as pessoas que estão com o microfone à mão nem sempre representam as convenções sociais em lugar nenhum do mundo, ainda que sejamos uma sociedade hipócrita, que preserva hábitos pudicos em público e os abandona no privado. As situações são claramente distintas. Karl Mannheim, sociólogo judeu entre os principais nomes da sociologia do conhecimento e teórico que pesquisou ideologias, admitia que a sociedade do alto difere da sociedade de baixo na maneira de pensar. Ele mencionou um adágio entre os concidadãos de Maquiavel que diziam que “o pensamento do palácio é uma coisa, e o da praça pública é outra”. No Brasil, os meios de comunicação tomados pelo lobby gay totalitário representam bem isso.

Em seu clássico livro, Mannheim rastreou as origens da ideologia, começando pelo período feudal, partindo das primeiras demonstrações de consciência em si, da coletividade ou comunidade global; passou ao segundo momento histórico do surgimento ou consciência nacionalista e chegou ao terceiro estágio, do desenvolvimento do conceito de ideologia, como consciência de classe ou ideologia de classe, a que ele chama de “a mais importante etapa da criação da concepção total de ideologia”.

A ocorrência da ideologia se deu “quando a ‘classe’ tomou o lugar do ‘folk’ ou da nação, como portadora da consciência historicamente em evolução [...] a de que a estrutura da sociedade e suas formas intelectuais correspondentes variam com as relações entre as classes sociais”. Observe o recurso a novos significados para as palavras que ele usa: se a consciência é de uma classe, já não pode ser chamada “total” (deveria ser “totalizante”) no seu sentido mais rigoroso. A “consciência”, no sentido proposto, é, então, uma metonímia: a minoria representa a maioria, a parte decide e responde pelo todo.

A Igreja brasileira em geral, e em particular aqueles que trabalham com a palavra, seja na exposição das Escrituras, na pesquisa acadêmica feita em seminários, mas também em inúmeros e importantes escolas bíblicas, deve tratar com cuidado e precisão as palavras que utilizam e a que pronunciam. Precisam focalizar e traçar com clareza seus limites, intenções, significados e usos dos conceitos e visões de mundo com que lidam. Definir significados e fundamentá-los bem é ferramenta necessária para esclarecer e formar bases seguras ao tratar as confusões que as ideologias querem causar entre papeis, formatos, identidades e modelos sociais que queremos manter.

Ideologias em geral pressupõem esferas de pensamento nas quais é “impossível conceber uma verdade absoluta”. A fé cristã, por sua vez, lida com absolutos, ainda que esteja enviesada por leituras sociológicas da teologia. A teologia também pode ser contaminada com lentes diversas e interesses específicos de uma ideologia qualquer.

No entanto, o estudo ou discurso sobre Deus (teologia) começa e termina com o absoluto: Deus (Gn 1.1; Jo 1.1-3; Fp 2.5-11), e ainda que Deus não tenha um gênero (ele não é masculino nem feminino, Ele É), ele não derivou o ser humano de si, mas o criou, fez o homem e a mulher em uma instância distinta da sua, absolutamente distinta de modo que estabeleceu um princípio claro sobre o qual a humanidade conseguiu chegar até aqui.

Entendendo isso, procuramos não negociar interpretações nem fomentar hermenêuticas travestidas de ideologias de atendam a uma minoria ou outra, porque a Escritura fala que Deus não opta por grupos, mas pelos cansados e sobrecarregados; não opta pelos pobres por serem pobres, mas pelos pobres que se reconhecem doentes e carentes de perdão. Pela Escritura, Deus parece não se inclinar a nossos sistemas racionais. Penso que ele mantém sua própria “lógica da salvação”, que começa e termina no Calvário, onde o assunto é o perdão dos pecados para homens e mulheres quebrantados e humilhados pela grandeza do gesto que não faz sentido para aqueles que tentam ajustar Deus às suas próprias agendas. ▣


Magno Paganelli é doutorando em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie) e é professor de Religiões Comparadas 1 e 2 no Betel Brasileiro.

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