• Editora Literal

O que aconteceu com a igreja brasileira?


Abmael Araujo Dias Filho


As eleições gerais de 2018 revelaram muito sobre a solidez e maturidade espiritual da Igreja brasileira, e talvez sobre a falta destas duas qualidades tão importantes.

As eleições não desviaram os cristãos brasileiros. Apenas revelaram os corações. Vimos exemplos deprimentes de ações e reações públicas por meio das redes sociais. E no nível pessoal também muito foi revelado.

Vimos pessoas idolatrando políticos. Vimos pessoas rompendo relacionamentos por causa de ideologias. Vimos pessoas usando um vocabulário tão baixo que não fazia jus ao padrão bíblico de sãs palavras. Vimos pessoas e pastores que abraçaram a defesa de práticas antibíblicas e de posturas injustas.

A grande pergunta que ficou é: “O que aconteceu com a Igreja brasileira?” Uma das respostas é que a religiosidade foi mais importante do que as ações prescritas pela fé cristã. Um padrão moral vazio mais importante que a semelhança de Cristo.

Isso é resultado de uma visão religiosa. Pois a religião valoriza o exterior e não o interior. Ao contrário do Cristianismo que prima pela ação de dentro para fora. A influência da Teologia da Prosperidade criou uma capa de hipocrisia que a aparência de riqueza era uma demonstração da bênção de Deus sendo derramada so- bre o seu povo. Pregadores que valorizavam uma performance, mas desprezavam o caráter. Participantes que levantavam suas mãos no louvor e que, ao saírem do “santo templo”, mantinham uma vida tão perversa quanto qualquer pessoa que rejeita a Cristo e ama a maldade.

Assim é necessário resgatar o conceito de que somos pecadores miseráveis dependentes de Deus. De maneira muito impactante podemos olhar para traz e seguir o exemplo dos puritanos. Eles não viam apenas os perdidos como desesperadamente corruptos, mas eles próprios.

É muito interessante que a Igreja de hoje influenciada pela autoajuda e confissão positiva quer que aqueles que participam de suas reuniões saiam de “astral alto” e “de bem com a vida”. Mas a tradição puritana faz questão de lançar sobre a face de seus melhores participantes a condição de carentes e necessitados da graça de Deus. O princípio é consolar os abatidos e abater os confortados. O resultado desta ação é profundo quebrantamento. É o desejo de ser santo por virem a sua condição de indignos.

Se o diagnóstico é triste, o que fazer? Precisamos avaliar tudo isso e colocar numa perspectiva de futuro dentro do que a Palavra de Deus orienta ao seu povo. Temos a nossa responsabilidade de dar uma boa imagem e visibilidade ao cristianismo através de um testemunho coerente entre o discurso e a vida diária. As Escrituras falam que é positivo quando sofremos críticas devido à nossa fé e nossas convicções que vêm da centralidade do Cristianismo. E elas reprovam quando as pessoas nos desprezam exatamente porque deixamos de evidenciar a vida de Cristo e apresentamos meramente um padrão religioso exterior sem transformação interior (1Pe 4.14-17). As Escrituras afirmam que uma vida pura, sensata e piedosa embeleza a doutrina de Deus (Tt 2.10). Elas, ainda, enfatizam a nossa responsabilidade de brilhar nesta sociedade que deu as costas para Deus (Mt 5.14,16; Fp 2.15).

As Escrituras destacam o papel da consciência do cristão que é humilhado por sua luta inglória contra o pecado interior. Enquanto o religioso não vê a sua maldade na presença de Deus. Podemos observar que o religioso não luta contra o pecado, apenas faz de tudo para justificar a sua vida rebelde e independente de Deus. Podemos contrastar isso pelos exemplos de Davi e Saul. Davi pecou e, quando foi confrontado pelo seu pecado, através de Natan, se jogou aos pés do Senhor sem justificativas. O mesmo nem de longe aconteceu com Saul. E Samuel confrontou Saul dizendo que obediência é mais valorizado por Deus do que a ritualística de sacrifícios. E mesmo advertido, Saul saiu e foi viver a sua vida sem qualquer tipo de quebrantamento ou transformação (1 Sm 15).

As Escrituras falam da importância da vida em comunidade para que se evite a religiosidade e se mergulhe na prática do Cristianismo. A religiosidade contemporânea tem a tendência de desprezar a Igreja. Uma das evidências disso é o novo grupo chamado de “desigrejados”. São pessoas que se dizem cristãs, mas não querem conviver com outros cristãos ruins, pois eles somente atrapalham o seu crescimento pessoal. Dizem que na igreja só tem pessoas “tóxicas”. Mas a Igreja, que se expressa de manei- ra visível através de igrejas locais, ocupa um lugar especial para Deus. Ele se deu por sua Igreja a qual comprou com o Seu próprio sangue (At 20.28). Esta afirmação mostra o valor inestimável da Igreja de Cristo. A igreja opera em nossa vida como um agente de convivência humilde e servil quando valorizamos os mandamentos recíprocos – “uns aos outros” (Rm 12.10). A igreja é o lugar para ajudarmos e sermos ajudados a viver o cristianismo e deixar a mera religiosidade (Rm 10.23-25).

Por mais que seja duro, a comparação entre a essência do Cristianismo e a religiosidade expõe claramente a superioridade do primeiro sobre o segundo. O cristianismo exalta Deus. A religiosidade exalta o homem. O cristianismo é gracioso. A religiosidade é meritória. O cristianismo exalta o quebrantamento. A religiosidade exalta a determinação humana. O cristianismo exalta a Cruz. A religiosidade exalta o domínio, consequentemente um trono sem o verdadeiro Rei. ▣


ABMAEL ARAUJO DIAS FILHO é casado desde 1998 com Fabiana e pai de Daniel e Giovanna. É membro da equipe pastoral da Primeira Igreja Batista de Atibaia desde 1995. Trabalha nas áreas de Casais e Educação Cristã.


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