• Editora Literal

Por que um reavivamento é necessário?


Hernandes Dias Lopes


Na mesma época que celebramos os quinhentos e um anos da Reforma Protestante, faz-se necessária uma reflexão profunda sobre a saúde espiritual da igreja. A espiritualidade da igreja, muitas vezes, está em descompasso com os valores do Cristianismo. Proclamamos uma coisa, mas vivemos outra. Há um abismo entre a teologia e a ética, entre a doutrina e a vida, entre o credo e a conduta. Mesmo havendo igrejas saudáveis e cheias do Espírito Santo espalhadas pelo mundo, o cenário geral é assaz preocupante. Destacaremos aqui algumas perigosas ameaças à igreja contemporânea. Vejamos:

Em primeiro lugar, a ameaça do liberalismo teológico. O Racionalismo trouxe em suas asas a ideia de que a razão humana é o supremo tribunal aferidor da verdade. O Iluminismo colocou o homem no centro do universo. A Alta Crítica faz uma releitura da Bíblia e assaca contra ela pesadas acusações. Acusam a Bíblia de ser um livro eivado de erros e prenhe de mitos. O resultado é que esse viés teológico, como um veneno letal, devastou a igreja onde chegou. Os seminários, que outrora formaram teólogos, pastores e missionários, agora, plantam ceticismo, promovem incredulidade e espalham apostasia. Os sinais da devastação provocada pelo liberalismo teológico podem ser vistos na Europa, na América do Norte e também no Brasil.

Em segundo lugar, a ameaça da secularização. O humanismo idolátrico baniu o jugo de Deus. Karl Marx, com seu materialismo dialético tirou Deus da história; Charles Darwin, com sua teoria da evolução, tirou Deus da ciência. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, tirou Deus do inconsciente humano. Friedrich Nietsche, do topo de sua soberba intelectual, disse que Deus morreu. Richard Dawkins, o patrono dos ateus contemporâneos, disse que Deus é um delírio. O homem, besuntado de orgulho, baniu Deus de sua vida e de sua história. Até mesmo aqueles que professam a fé cristã, em muitos redutos, já empurraram Deus para a lateral da vida e vivem para o seu próprio deleite e não para a glória de Deus. Tudo agora gira em torno do homem. Tudo acontece pelo homem e para o homem. A secularização está entrando nas igrejas, deixando-as anêmicas e desidratadas. A falta de engajamento e fervor da maioria dos crentes é um fato incontroverso.

Em terceiro lugar, a ameaça do sincretismo. No afã de atrair mais pessoas para o seu arraial, muitos líderes, desprovidos da verdade, introduzem na igreja crendices pagãs e práticas estranhas à sã doutrina para enredar os incautos. Torcem a palavra de Deus. Inventam novidades. Acorrentam o povo com as cordas da ignorância. Por causa da ganância insaciável, esses corifeus do engano, transformam o evangelho num produto híbrido, o púlpito num balcão, o templo numa praça de negócios e os cristãos em consumidores. O vetor que move esses arautos da mentira é o lucro. Esses lobos travestidos de pastores arrancam a lã das ovelhas e devoram sua carne, dando-lhes o caldo mortífero das últimas novidades do mercado da fé, para mantê-las prisioneiras do engano religioso.

Em quarto lugar, a ameaça do mundanismo. A verdadeira doutrina desemboca na verdadeira ética. Os reformadores ensinavam a vida simples e viviam de forma modesta. A simplicidade era a marca do cristão. O ideal desses homens não era ajuntar tesouros na terra, mas no céu. Não era ostentar bens materiais, mas promover a fé. Não era copiar o mundo em seus conceitos, valores e prazeres, mas inconformar-se com ele. Não era viver no fausto e no luxo, mas proclamar o evangelho, mesmo sob severa perseguição, e isso, até aos confins da terra. A paixão pela glória de Deus foi sendo perdida a cada geração. O entusiasmo com o avanço do evangelho entre as nações arrefeceu. A igreja passou a amar o mundo e a conformar-se com ele em vez de ser luz no mundo e embaixadora do reino de Deus.

Em quinto lugar, a ameaça da ortodoxia sem piedade. A ortodoxia é necessária, inegociável e insubstituível, mas a ortodoxia precisa vir acompanhada de piedade. Uma ortodoxia ossificada produz morte, pois a ortodoxia morta, mata. Não basta crer nas doutrinas certas, é preciso viver da maneira certa. Não basta ter luz na mente, é preciso ter fogo no coração. Não basta ter conhecimento certo, é preciso praticar o que é certo. Não basta convicção, é preciso poder. Não basta ter zelo pela sã doutrina, é preciso praticar o genuíno amor. O descompasso entre teologia e ética, doutrina e vida, fé e conduta tem sido um grande estorvo ao avanço da fé cristã. Em face das considerações retro mencionadas, é mister a igreja arrepender-se e clamar por um poderoso reavivamento espiritual, preparando o caminho do Senhor, para que ele se manifeste.

Nesse cenário que acabamos de descrever, é mister fazer uma reflexão e tomar algumas decisões. Primeiro, precisamos voltar ao primeiro amor. A igreja precisa não apenas de sã doutrina, mas também de intimidade com Deus. Precisamos ter não apenas luz na mente, mas também fogo no coração. Segundo, precisamos de uma volta às Escrituras. Os púlpitos precisam assumir um compromisso com a supremacia de Cristo e a primazia da pregação. Precisamos pregar não palavras de homens, mas a palavra de Deus. Só esta é eficaz para chamar os eleitos ao arrependimento e alimentar as ovelhas de Cristo. Terceiro, precisamos de uma agenda centrífuga em vez de uma ação centrípeta. A igreja precisa sair das quatro paredes e ter uma ação fora dos portões. Em vez de esperar que os pecadores venham a ela, deve sair de seu comodismo e ir lá fora onde os pecadores estão para ganhá-los para Cristo. A igreja precisa deixar a especulação teológica para engajar-se numa agenda missionária. Quarto, a igreja precisa exercer misericórdia num mundo ferido. Evangelização e ação social não se excluem, complementam-se. A igreja que proclama o evangelho é a mesma que exerce misericórdia.

A mesma igreja que prega a supremacia da graça, demonstra o amor de Deus ao mundo, através de um serviço abnegado. Não somos salvos pelas obras, mas para as boas obras. Quinto, a igreja precisa romper o isolamento do egoísmo para viver a realidade do amor, o mesmo amor com que Cristo nos amou.Só assim seremos conhecidos como discípulos de Cristo. Sexto, a igreja precisa ser uma agência de contracultura num mundo que fica de cócoras ao relativismo. Precisamos nos conformar com os inconformismos de Deus para nos inconformamos com os conformismos do mundo. Sétimo, a igreja precisa ser um luzeiro a brilhar. Mesmo tendo luz própria, a igreja deve refletir no mundo, a luz de Cristo, a verdadeira luz que ilumina a todo homem.. ▣


REV. HERNANDES DIAS LOPES é diretor executivo da Luz para o Caminho (LPC). Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória desde 1985. Pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. Conferencista e autor de mais de 130 livros..


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