• Editora Literal

Tudo seria mais fácil se todos aceitassem viver como o “Arquiteto da família” determinou


Entrevista: Jaime Kemp


Dr. Jaime Kemp é norte americano. Proveniente da Califórnia, formou-se no Western Seminary – Portland, Oregon, e na Universidade Biola – Califórnia, onde também recebeu o doutorado em “Ministério da Família”. Em setembro de 1965 casou-se com Judith. Um ano e meio depois, em 1967, vieram para o Brasil como missionários. Iniciaram um grande trabalho de orientação à juventude brasileira, fundando a missão “VENCEDORES POR CRISTO”. Jaime e Judith têm três filhas, Melinda, Márcia e Annie, dois netos e uma neta, James Paul, Skyler e Keyla Grace.

Em 1998, Jaime Kemp fundou, oficialmente, a Associação Lar Cristão. O pastor Jaime Kemp falou com exclusividade para a revista Literal sobre o polêmico tema “Ideologia de gênero:

O senhor é um dos mais respeitados autores e palestrantes cristãos na área de família e comportamento, com ênfase em relacionamento conjugal. Passadas tantas décadas de atividade, o senhor diria que, hoje, o tema é mais difícil do que era há 30 ou 40 anos?

JK: Sim, o tema é mais difícil do que 40 ou 50 anos atrás. Vários são os fatores: o impacto dos veículos de comunicação; TV; rádio e internet, mas principalmente das mídias sociais. Mudanças radicais na família dificultam o desenvolvimento conforme os princípios de Deus. Exemplo: quando cheguei no Brasil há 50 anos, menos de 30% das mulheres casadas trabalhavam fora, hoje chega 70%. O sistema de namoro de antigamente era mais restrito, o cuidado era maior, o casal pouco ficava sozinho e sempre tinha os olhares dos pais sobre esse relacionamento. Geralmente os filhos só saiam de casa, casados. Hoje em dia, por falta desse relacionamento mais próximo dos pais, acaba gerando promiscuidade no namoro. Também a preocupação com o “sustento” da família, fez com que pai e mãe saíssem para o mercado de trabalho, deixando seus filhos para serem criados com empregadas, creches, avós, etc, distanciando o relacionamento que é fundamental nos primeiros anos de uma criança, época em que são passados valores e limites para o indivíduo.

Na sua opinião, quais têm sido os efeitos mais deletérios dos questionamentos aos papéis tradicionais de homens e mulheres?

JK: Em relação homem marido, temos visto o abandono total de seu papel como sacerdote espiritual da casa, obviamente muitos homens nem sabem o significado da palavra sacerdote. Por longas horas no serviço, ele chega em casa cansado com pouca motivação para se socializar com os filhos. Em relação à esposa e mãe, ela tem sido impactada pelo movimento feminista, acaba dando mais valor seguir a carreira profissional e subir no ranking economicamente falando, do que se empenhar em seguir “carreira” de esposa e mãe. Há poucas mulheres que têm energia e disciplina de ser mãe, esposa e mulher de negócios com sucesso, sem se perder em alguma das funções. Entendo que a realidade brasileira é difícil, muitas mulheres são obrigadas a trabalhar fora para ajudar no orçamento familiar, porém acontecem essas descompensações no seio familiar.

Ideologia de gênero e sexismo são temas da agenda contemporânea que têm mobilizado setores da sociedade, criando um antagonismo entre os que se consideram liberais e os que adotam postura mais conservadora. O senhor enfrenta alguma resistência ou críticas em face da mensagem ortodoxa que prega nesta área?

JK: As ideologias de gênero e sexo criam uma total confusão na família. Alguns deles não aceitam os princípios da palavra de Deus. Gênesis 1.27-28 comunica claramente que nosso relacionamento é heterossexual e não homossexual.


Pessoalmente tenho sofrido um bocado a resistências e críticas sobre esse assunto, porque trato especificamente o que diz a Bíblia, e isso nem sempre é aceito. Tenho ensinado constantemente: nasceu masculino, assume seu papel de homem; nasceu feminino, assume seu papel de mulher. Tudo seria mais fácil que todos aceitassem viver como o “Arquiteto da família” determinou.

O lado liberal, o qual não se submete à palavra de Deus, em alguns contextos se tornaram muito hostis e impacientes em ouvir qualquer outra posição que não seja a deles. Em relação ao movimento homossexual, eles justificam o comportamento dizendo que alguns já nascem assim, porém quero deixar bem claro que a ciência e a medicina nunca provaram tal fato.

Para o senhor, quais são os maiores desafios que a Igreja Evangélica enfrenta diante da dissolução da imagem tradicional – e bíblica – de família, aquela comandada por um homem e que tem a mulher como auxiliadora?

JK: Os maiores desafios são: os pastores têm que ser profetas em seus púlpitos, quer dizer, ensinamentos práticos e claros sobre a família, sobre o compromisso que o casamento trás com a passagem que diz: ”até que a morte os separem”. Acho interessante dizer que a maior parte dos divórcios tenham por base incompatibilidade de gênios. O fato que somos todos pecadores já nos dá muita facilidade em ser incompatíveis, teriam que levar isso em consideração antes de tomar a decisão na separação. Outra questão seria casamentos baseados em romantismo e não em amor verdadeiro.

Falta de curso pré-nupcial para a preparação do casal também tem contribuído para a queda do lar. A maioria dos casais que estão nos altares de nossas igrejas não estão preparados para viver sob o mesmo teto em paz e harmonia. Toda igreja precisa ter pessoas preparadas e qualificadas para fazer ministrar curso para os noivos.

Por outro lado, como o cristão deve dialogar com as novas configurações familiares, sobretudo com o aumento expressivo de lares cujo responsável é uma mulher?

JK: A igreja precisa constantemente promover cursos, estudos, simpósios, etc, sobre o papel do marido, papel da esposa, comunicação, como resolver conflitos, a vida íntima do casal, a importância do perdão, as diferenças entre homens e mulheres, as várias fases do casamento com desafios, lutas e alegrias, etc.

Algumas ramificações das igrejas têm investido mais em pregação da prosperidade e assuntos relacionados a isso, do que propriamente no ensino de assuntos familiares baseados na palavra de Deus (a Bíblia).

Quais os maiores problemas decorrentes do abandono ou ineficiência, por parte do homem, de seu papel de liderança na família?

JK: 1. A maioria dos maridos nem tem conhecimento do seu papel.

2. Muitos não aceitam o papel do homem biblicamente falando.

3. A ênfase do impacto materialista “força” o homem a abandonar sua família para se dedicar a crescer financeiramente na vida. Também a falta de bons modelos de como o pai deve amar suas esposas e filhos, interferem nesse relacionamento.

O feminismo, aí encarado como movimento, floresceu na chamada contracultura ocidental dos anos 1960 e 70. Ele enfatizava a valorização da mulher na sociedade e a defesa de direitos iguais entre os gêneros. Contudo, ultimamente, a expressão “empoderamento feminino” propõe uma leitura radical do feminismo. Como pastor e conselheiro cristão, como o senhor analisa essa ideologia?

JK: Como qualquer filo-sofia, seja materialismo, humanismo, hedonismo, individualismo, relati-vismo; o feminismo também faz parte. Certamente há necessidade de exaltar o trabalho feminino perante a sociedade, pois sabemos de sua competência e também de sua desvalorização. Quando o evangelho é pregado, ensinado e vivido em qualquer cultura, todos deveríamos reconhecer o valor da mulher, afinal Jesus deixa isso bem claro nas Escrituras. O que não podemos, é esquecer que ela não precisa ser reconhecida somente como uma mulher de negócios bem sucedida na vida profissional, mas também na vida familiar. Mães e esposas dedicadas e bem sucedidas em seus lares são capazes de também transformarem o mundo.

Quais são as principais atividades do Ministério Lar Cristão?

JK: Realizamos seminários de aproximadamente dez horas (normalmente aos finais de semana) falando para famílias. Temos nove cursos do qual atingimos os públicos: adolescentes, jovens, casais, pastores, mães e pais.

Publicamos por volta de 60 livros que servem de respaldo as famílias. Também temos a revista Lar Cristão, com mais de 33 anos, da qual tratamos sobre assuntos familiares. Temos vários meios de comunicação virtuais com estudos (YouTube, Facebook, Wattsapp, etc). Promovemos encontros pastorais com suas esposas e lideres. Fazemos entrevistas em rádios e televisão.

O trabalho de Lar Cristão é respeitado por denominações de variados matizes teológicos, o que se explica, entre outras coisas, pelo respeito que seu nome conquistou. Hoje, quais são as prioridades de seu ministério?

JK: Hoje seria discipular lideranças da igreja nos ensinos com a palavra de Deus, voltados à família.

Defender os princípios da família, numa sociedade que a rejeita como célula básica da sociedade. Produzir materiais como livros, apostilas, CDs e DVDs, artigos em revistas, vídeos em web sites que auxiliem as famílias brasileiras. Com o pouco tempo que me sobra ativamente no Brasil, quero deixar uma herança espiritual para as famílias brasileiras, baseada na palavra de Deus.

A Bíblia afirma que Deus criou homem e mulher, macho e fêmea. A tradição judaico-cristã reserva papéis bem definidos para ambos os gêneros – todavia, trata-se de um livro escrito há milhares de anos, em uma cultura oriental e patriarcal. Até que ponto o cristão pode flexibilizar questões como liderança e protagonismo feminino, já que até o apostolo Paulo proibiu a mulher, sequer, de falar publicamente na igreja?

JK: A Bíblia foi escrita durante 1.600 anos, por 40 homens e mulheres que viviam em várias culturas diferentes, mas é um milagre que toda essa diversidade tenha mantido a mesma linha de pensamento, que seria o drama da redenção do homem. Outra coisa que temos conhecimento é que é o livro mais vendido e traduzido em todo mundo. O cristianismo já atingiu mais que 2 bilhões e 200 milhões de seguidores que se baseiam na Bíblia.

Em relação à flexibilidade do ensino, o que é claramente dito na Palavra, deve ser vivido em qualquer cultura ou época. Porém, temos toda liberdade de aplicar a Palavra em situações culturais. O que quero dizer com isso é que Paulo alegava um problema que existiu naquele tempo, naquele local, naquela regional, e não deve ser visto universalmente. As mulheres de nosso país e com nosso contexto, são imprescindíveis para a obra de Deus. Exemplo disso é que elas são as mais envolvidas no projeto de missões, estão pelo mundo a fora falando sobre a palavra de Deus.

O senhor é favorável à ordenação pastoral feminina? Por quê?

JK: Não, porque não existe na Bíblia essa função de pastora instituída a mulher. O que existem são muitos ministérios femininos dentro da igreja, por exemplo, diaconisa (Tito 2). Como sempre digo, o que seria de nós se não fossem as mulheres para nos ajudare e auxiliar nessa obra tão intensa e extensa. Elas são parte forte no corpo de Cristo.

Na sua opinião, como os púlpitos têm lidado – se é que o tem – com as questões de gênero que são trazidas pela pós-modernidade?

JK: Uma grande porção de pastores no púlpito de hoje nunca trataram sobre o assunto, muitos por não terem uma opinião ou conhecimento, outros por medo de serem altamente criticados. O que devem ensinar e esclarecer é que somos heterossexuais, afinal de contas não podemos esquecer que duas cidades (Sodoma e Gomorra) foram destruídas por conta do pecado.

O senhor concorda que existe hoje, no Brasil, uma onda conservadora em relação à moral e aos costumes? Se sim, considera isso positivo ou negativo? Seria uma tentativa de retorno aos antigos valores ou nada além de uma afirmação política de grupos considerados de direita?

JK: Sim, há essa onda conservadora justamente para defender os relacionamentos familiares cristãos, porém, infelizmente, muitas vezes o ensino de moral e costumes não é comunicado com carinho, amor e graça aos incrédulos, nos afastando ainda mais. Defender os princípios bíblicos da família é sim positivo, mas a maneira como são comunicados muitas vezes são negativas.

Boa parte da matriz comportamental e teológica brasileira ainda é oriunda dos EUA, seu país de nascimento. Como o senhor vê essa influência, hoje – sobretudo, com a atual gestão do presidente republicano Donald Trump?

JK: Sempre existem influencias positivas e outras negativas. Positivas são os ensinos bíblicos, negativas são usos e costumes que também vieram de lá sem nenhuma base bíblica e que até hoje prejudica o cristianismo em sua autenticidade.

Em relação ao presidente Trump, temos que lembrar que ele não é político e sim empresário, ele não tem “rabo preso” com os governantes. Também lembramos que ele não é cristão muito embora faça defesa dos perseguidos como os do oriente médio e os judeus. Como no Velho Testamento, Deus usou os reis pagãos para cumprir sua vontade com o povo de Israel. Donald Trump, mesmo não sabendo, faz algumas coisas que estão sendo cumpridas pelo Deus soberano.

Duas ilustrações: recentemente colocou um homem conservador no superior tribunal dos EUA o que dará mais chances de reconhecimento dos valores cristãos. Ele mudou a embaixada para Jerusalém, coisa que quatro presidentes anteriormente não conseguiram fazer. Não podemos esquecer que o cristianismo anda e sempre andará lado a lado com o judaísmo.

A esta altura de sua vida e de seu ministério, quais são seus desejos em relação à Igreja brasileira?

JK: Que seja uma igreja autêntica, que defenda a fé cristã contra muitas filosofias da pós-modernidade e que seja uma igreja cheia de graça e poder. ▣



#Bíblia #Textossagrados #Religião #Justiça #Ideologiadegênero #Escrituras #Família #Ética #Coaching #Intercessão #IgrejanaEraDigital #Digital #Igreja #literatura

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo